terça-feira, fevereiro 08, 2011

 

"A CIDADE EM RUÍNAS"

O início do segundo capítulo de um dos livros preferidos da minha vida, marcou-me tanto que, nas mais variadas situações, quando falo com alguém em sofrimento, acabo por me lembrar daquele parágrafo e costumo referir-me a ele, embora sem o citar ipsis verbis que a minha memória não é assim tão prodigiosa e porque, na verdade, o que importa é a ideia.

Hoje, no entanto, é para mim que o quero lembrar. E retirei da estante o livro que está todo de folhas soltas, provavelmente pelos maus tratos que lhe dei nas vezes que o li. Porque a reverência com que trato os livros, não inclui cuidados com o objecto que são. Antes pelo contrário. Gosto de os vincar, riscar, deixá-los de lombada quebrada. Se um livro passa por mim incólume, pronto a ser leiloado no e-bay com a descrição "praticamente novo", é porque não me deixou absolutamente nada.

Por ser para mim, quero que estejam lá as palavrinhas todas, tal como as bebi. E, para que se gravem indelevelmente, quero deixa-las aqui escritas. Como se fosse uma cábula de harmónio como as que fazia para os testes mas que acabava por nunca usar, uma vez que a transcrição da matéria para o papel que dobraria cuidadosamente para enfiar em qualquer orifício de fácil acesso, era suficiente para que não mais me esquecesse do que lá estava.

"Não tentes enterrar a dor: estender-se-á pela terra, sob os teus pés; infiltrar-se-á na água que tenhas de beber e envenenar-te-á o sangue. As feridas fecham-se, mas ficam sempre cicatrizes mais ou menos visíveis que voltarão a incomodar quando mudar o tempo, lembrando-te na pele a sua existência e, com ela, o golpe que as originou. E a recordação do golpe afectará as decisões futuras, criará medos inúteis e tristezas vis, e crescerás como uma criatura apagada e cobarde. Para quê deixar para trás a cidade onde caíste? Pela vã esperança de que, noutro local, num clima mais benigno, já não te doerão as cicatrizes e beberás uma água mais limpa? Em teu redor erguer-se-ão as mesmas ruínas da tua vida porque, para onde quer que vás, levarás a cidade contigo. Não há terra nova nem mar novo, a vida que não aproveitaste ficará por aproveitar em qualquer parte do Mundo."

LÚCIA ETXEBARRIA, Beatriz e os Corpos Celestes

Comments:
Não fosse este um dos meus livros preferidos...
 
Miúda(nada)Má: olha como se ganha uma resposta sem pergunta ;)
 
A Má aqui sou eu :(
 
Quando o mundo me caiu aos meus pés, parei de viver, é verdade. Ficaram cicatrizes profundas, que me fazem recordar humilhações, indiferenças, deslealdades,coisas pesadas. Este facto, durante anos, afectou todas as minhas decisões futuras.
Mas, há um tempo atrás voltei a querer viver novamente. E,com as minhas cicatrizes, vou conseguindo derrubar medos inúteis, deixei de ter vontade de levar essa mágoa para a vida que reconstruo absolutamente sozinha, com espanto, com medos, com tristezas, mas também com uma grande zanga por me ter permitido não aproveitar a vida durante tanto tempo. Desde que voltei à vida, garanto-lhe que vou conseguindo erguer uma outra cidade, devagar, com muitas fragilidades ainda, com uma auto-estima deplorável, porque asseguro-lhe, que tudo o que ergui foi absolutamente sozinha.
Se eu o fiz sem ajudas, porque não há-de a Maria ser capaz de (re)construir uma outra cidade? Pelo que sinto e observo, teria tanta gente que a ajudaria e, do que aprendi, permita-me que lhe diga que, não só a tal cidade permaneceria de pé, mais pequenina, é certo, porque com o valor que lhe dão e com essa força que um dia voltará, construirá não uma outra cidade, mas um império! Cicatrizes temos todos, temos sempre. E depois? Isso é viver!
 
E sabes...com os anos vividos, já passei por esta experiência, tentei fugir para outro País pensando eu, que como pó tudo se esfumasse e encontraria o lugar onde tinha sido feliz, e reconstruir a tal de minha cidade...mera ilusão, os problemas foram comigo, e eles encarregaram-se de a tornado igual à que para trás tinha deixado. Tive que destruir esta e voltar à que tinha deixado...
Jinhos grandes
 
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