Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

 

RELATÓRIO E CONTAS

Nunca fiz planos para o Ano Novo, nunca tomei daquelas resoluções de mudança a colocar em prática impreterivelmente na manhã de 1 de Janeiro. Sou mais do tipo balanços. Se calhar, porque sou uma insegura e temo tanto o futuro que prefiro agarrar-me ao que já cá canta, seja bom ou mau.

No dia 1 de Janeiro de 2011, fui a Fátima. Entreguei à Mãe o meu ano novinho em folha. Pedi-lhe que mo gerisse por estar tão incapaz que roçava a inimputabilidade. Assim, dispus-me a ter apenas o usufruto dos 365 dias que se seguiriam e em que nem queria pensar, por serem tantos. Eu, que ainda há tão pouco, tentara ceifá-los e acabar com qualquer alvorada que sobreviesse. Quanto mais 365!...

Mas, afinal, cheguei aqui. À distancia de apenas 2x1 dia que é, como quem diz, só mais hoje e amanhã. A contar como contava os dias que faltavam para a data da festa. “No tempo em que festejavam os meus anos (…) e ninguém estava morto”.

Mal me reconheço na pessoa que viveu os primeiros meses deste ano. Leio coisas que não me lembro de ter escrito, embora seja a minha letra – ainda que mais feia e desordenada – que encontro em pequenos apontamentos feitos aqui e ali que, hoje, me apanham de surpresa, ao abrir o caderno da escola ou o livrinho das notas que tomo na supervisão ou, ainda, aquele caderninho que tenho na mesa-de-cabeceira e que foi um presente de um presente do céu.

Quando me perguntam como estou agora, respondo, invariavelmente e desde há cerca de dois meses, que “Andei perdida, fui ao fundo mesmo fundo mas já estou quase eu. Ainda não totalmente mas quase”. Esta frase tem-me soado estranha. Há qualquer coisa no seu conteúdo que não ressoa cá dentro. Como se estivesse a ser dita por outra pessoa ou como se eu estivesse a falar para alguém e não com alguém (como me ensinou o meu saudoso Mestre) quando a formulo.

Pensei que fosse por não me identificar com o nacional espírito fatalista (embora cada vez goste mais de fado e seja a única música que consigo ouvir quando estou triste, provavelmente para sintonizar com o afecto sentido). Aquela coisa de não dizer que estamos bem, sim senhor. Não vá dar azar… Ou alguém com um olho muito gordo invejar-nos o sorriso e a luz que desatámos a emanar.

Quando se pensa em alguma coisa, de forma empenhada e honesto desejo de tomar consciência, tornamo-nos clarividentes. A justificação que parecia tão lógica, não me satisfez. Do contra, como sei que sou, não me revejo no estar lusitano, nesta coisa que, por certo, remonta a um passado glorioso que tivemos e que, por má sorte ou olhado, perdemos, até nos confinarmos a ser pouco mais do que a praia da Europa.

Portanto, o meu titubear, a minha falta de vontade de afirmar-me completamente bem, teria de ter outra origem, outro significado. Como sempre, veio de repente: Claro!... Há aqui uma incongruência que reitero na minha insistência no ainda. Digo: “Ainda não estou totalmente eu”. Ainda não estou eu porque não sou aquele eu!

Morri. Verdadeiramente. Em dada altura. Não numa data específica mas por uma série de dias a fio. Uma morte lenta, agonizante, extremamente dolorosa. Vivi as chamadas “melhoras da morte” para, logo de seguida, sucumbir definitivamente. Sufoquei em pranto, em nós cegos atados ao estômago, soçobrei exangue, entreguei-me à foice. Morri e matei. Fui semeando dor à minha volta. Queimei tudo em que toquei. Cerquei-me de aridez.

Apaguei-me do mundo. Deixei de existir. Não quis saber de nada nem de ninguém. Era peso demais para o meu corpo de morta-viva. Fui. Lá, no limbo em que me acolheram, deixei-me ficar. Entreguei-me sem esperança, sem dor, sem paz, sem nada. Toda eu uma coisa nenhuma. Depois, quando chegou o momento, reencarnei. “Na vida que escolhi”.

Este “eu” já sou um eu. Sou alguém que perdeu a visão romântica do ser humano sem, contudo, ter perdido a fé nas pessoas. Sou ponderada, paciente, contida. Sem, contudo, ter perdido a alegria, o entusiasmo, a espontaneidade. Sei viver cada dia como se a vida toda dependesse apenas disso, sem me preocupar com o quanto o amanhã é condicionado pelo que faço hoje. Sei que, agora, é tudo o que tenho. E que a minha obrigação é vivê-lo. Aprendi a dizer “não” e, com isso, a dizer verdadeiramente “sim”. Permito-me o prazer de nada fazer e a ninguém agradar a não ser a mim, se para isso estiver virada. Ou o oposto, completamente. Reencarnei livre. E, acredito, capaz de assumir toda a responsabilidade que a liberdade total acarreta. Com medo. Que é sentimento humano e necessário. Mas com coragem. E desprendimento. E desapego.

Nada é meu. Nada é certo. Nada é para sempre. Somente eu. Que, afinal, já sou.

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

 

FURA QUÊ?

Dois dos meus piores defeitos são absolutamente antagónicos. Tenho tanto de racional (posso ser tão argumentativa que, se estiver para aí virada, dou "nó até em gota de água") como de emocional (a típica movida a coração, fúria, ausência de bom-senso).

Por ser assim, a maioria das atitudes que tomo não são verdadeiras decisões, pensadas e conscientes. Porque resultam da teimosia ou do impulso. Nunca de reflexão ponderada e madura. Ok... tenho melhorado um pouco, à custa de alguma dor, algum trabalho e tempo e, sobretudo, de muito dinheiro. Que a minha psi é óptima mas faz-se pagar muito bem!...

Nesta dinâmica, sem que percebesse porquê, acordei um dia destes convicta de que iria aderir à greve de hoje. Toda a gente sabe que não percebo nada de política, ignorância que já me causou vergonha mas que, agora, apenas ganha corpo num (fútil?) encolher de ombros. Toda a gente sabe, também, que apesar disso, sou um pouco mais do que simpatizante do PP, que me agrada o capitalismo e que só tenho pena de não poder viver como fascista à séria por não ter dinheiro para isso.

Normalmente, não me questiono nem me preocupa perceber as minhas incongruências. Geminiana pura, estou habituada aos múltiplos que me habitam em coexistência nada pacífica. Ser do FCP e do SLB (conjugação que há quem diga impossível) explica muita coisa.

No entanto, talvez porque alguém de quem gosto muito (querida Sista) me chamou "camarada do PP", desta vez a nota assintónica feriu-me os neurónios que pertencem ao pedaço encefálico que raramente uso e que serve para dar sentido ao que me interessa explicar. E, quando assim é, ou percebo ou... inquieto-me num desassossego que farta.

A minha sorte é a velocidade das sinapses (que Deus estava generoso quando chegou a altura de mas conceder) e a luz costuma vir em flash. Ontem, precisamente ao picar do ponto à saída do trabalho, o que parecia incoerente, apareceu-me organizado, lógico, racional e, mais importante que tudo, assente nos meus mais preciosos valores e princípios: é verdade que defendo o capital, que acho que não merecemos todos o mesmo se não produzimos o mesmo, que a democracia não é conceito operacionalmente viável porque há gente burra e cretina e não podemos ter todos o mesmo peso nas decisões que afectam todos.

Mas é também verdade que não nascemos todos com as mesmas oportunidades. Que há gente fadada com o infortúnio e a quem não podemos, levianamente, atribuir o rótulo de párias da sociedade. Tenhamos nós, os que nasceram "com o rabo virado para a lua", alguma decência na cara.

As cadeias estão cheias apenas de pobres (de carteira e de espírito, é certo), de gente que nasceu e cresceu em sub-mundos que a maioria de nós só sabe que existem porque é informada e tem uma (mórbida?) curiosidade por vidas excêntricas.

Ao meu lado, todos os dias, trabalham pessoas que, no dia de hoje, se sentem envergonhadas. No seu íntimo, sabem que talvez de nada valesse fazerem greve, que "estas coisas" nunca levam a nada. Independentemente disso, gostariam de ter a liberdade para decidirem fazê-la ou não. Com maior ou menor engajamento político.

Mas não a têm. Simplesmente porque a perda do vencimento de um dia é determinante na economia familiar. É um luxo a que não podem dar-se. E a liberdade não é um luxo, não é um bem supérfluo, não é um acessório. É um direito fundamental. Sabê-la coarctada faz revolver as entranhas de PP-simpatizante.

É por isso que hoje estou de greve. Estou zangada com a forma como governam o meu país mas, disso, eu não percebo nada. Nem sei, na verdade, que efeitos esta greve pode produzir. O que sei é que posso escolher não trabalhar hoje. Eu posso decidir manifestar o meu descontentamento. Eu posso prescindir do vencimento de um dia de trabalho. No limite, aumenta o delay da decisão de comprar impulsivamente (mais) um anel. Apenas.

Eu hoje estou de greve pela liberdade perdida.

Domingo, Novembro 20, 2011

 

O INFINITO EM PÉ

Hoje faz anos o mEiA vOlTa e... Visita privilegiada daquele espaço, de entre as certezas que tenho na vida a de que serei sempre calorosamente recebida naquela casa é, sem dúvida, uma delas.

Posso afirmar que a aNa já fez bem a muita gente. Durante anos, acompanhei, de muito perto, a forma como ela se dá à interacção, o valor que atribui à riqueza que lhe advém dos contactos que suscita, das reflexões que estimula.

Digo, com toda a segurança, que a aNa mudou vidas. Não só a minha. Sei que haveria, pelo menos, meia dúzia de pessoas pronta a confirmar o que digo e a afirmá-lo na primeira pessoa. E quando falo em mudar, estou mesmo a referir-me a alterações profundas e não a meros ajustamentos.

O segredo tem um nome: autenticidade.

Por isso a aNa tanto é doce como arisca. Ora se desvela, ora se resguarda. Como ela diz, não é com meia volta que se fica a conhecê-la. Nem com a volta toda... Porque as voltas são sempre diferentes. Imprevisíveis. Espontâneas. Função de humores, estados, momentos. À imagem e semelhança de quem as dá. No entanto, qualquer um de nós que a lê, sabe que o que está lá... é! Só assim sei definir.

E é por isso que, apesar do mau feitio, de se outorgar o direito de não permitir em sua casa levianas contradições, ilegítimas investidas no seu mundo, dá tanta segurança a quem dela se aproxima.

E, acreditem, embora prime pela selectividade nas suas relações pessoais, não é difícil vê-la de braços abertos para acolher quem a procura. Atrevo-me a dizer que a única condição é ser-se tão honesto e transparente quanto ela. E, isso sim, não é para qualquer um.

Obrigada aNa!

Quarta-feira, Outubro 05, 2011

 

A BESTA (de novo)

Há mais ou menos 18 anos, estive deprimida verdadeiramente pela primeira vez. Refiro-me ao conceito clínico e não apenas àquela melancolia, tristeza, desalento que todos sentimos, em maior ou menor grau, mais ou menos vezes ao longo da vida, com uma curiosa e particular incidência aos domingos ao fim da tarde.

Disse querer morrer. Fiz uma patética tentativa, de cariz essencialmente apelativo, ao jeito do cobardolas que, desafiado a andar à pancada, enquanto dá uns seguros passos atrás, berra: “agarrem-me, agarrem-me que lhe parto os dentes todos”…

Agarraram-me. Fizeram tudo direitinho - eu também - e a “coisa” passou no seu devido tempo. As perdas que se (me) sucederam, as mortes com que tive de lidar depois disso, obrigaram a um congelamento da minha estrutura, a um segurar tudo “cá dentro”, para não desmoronar.

E a vida correu. Durante os primeiros anos que se seguiram, tinha pavor de voltar a deprimir. Mais ainda do que de ficar diabética. Que é coisa que me deixa estarrecida. Era só o que me faltava!… Deixar de poder recorrer à minha droga de eleição.

Aos poucos, fui esquecendo como me sentira, fui-me tornando mais feliz, fui acreditando que, afinal, a vida apenas dera uma fífia, que o episódio não passara de uma partícula de pó no caminho da agulha sobre um disco de vinil.

E fui feliz. Descontraidamente feliz. Despreocupadamente feliz. Tranquila e serenamente feliz… E doente. Muito doente no corpo. Mas de alma iluminada.

De repente (“Não mais que de repente”), sem que nada o fizesse supor ou suspeitar, nem a mim nem a ninguém, quase que apenas num instante, num ínfimo lapso de tempo, a temida voltou. E veio com tudo. Com a força da besta que esteve, anos a fio, retirada do mundo, num qualquer recôndito lugar, a urdir estratégias, a treinar golpes, a desenvolver músculo e cérebro com o objectivo único de se lançar a mim. Sedenta de desforra e triunfo.

Colou-se-me à pele, transformou-se na carne que me reveste os ossos, tomou-me de assalto o coração e deglutiu todo o meu conteúdo cefálico. Trouxe consigo doses de terror com que me injecta regularmente. Alimenta-me de angústia e mágoa e leva-me a passear a labirínticas florestas onde me solta a trela para que me sinta perdida.

Tem uma ajudante. Uma espécie de partenaire do ilusionista do circo. É sedutora, no seu sorriso tranquilo e doce. Aparece-me de braços abertos e convida-me, com o olhar, a aceitar o colo que me oferece: “Anda, acolhe-te aqui. Verás como tudo passa. Já chega… Para que continuas a penar? Anda… Levar-te-ei a ver maravilhas, a um mundo encantado. Lá, serás feliz…”.

Ah! Que vontade de me deixar ir… Mesmo que a esmola seja grande e eu, pobre, desconfie. Como recusar a promessa de uma vida nova, num maravilhoso (admirável?) mundo novo? Aqui já está tudo gasto: já vivi alegrias, dores, paixões, angústias, nadas, tudo em graus exponenciais e que chegam para toda uma vida. Vivi. Vivi! Nunca nada me passou ao lado, desde que ao alcance do meu braço. Sou demasiado preguiçosa e descrente para me mexer. Mas vejo-me em pose estática, com os meus longos braços em movimento contínuo, quais tentáculos de polvo agarrando tudo o que me passava perto. E a saber tirar todo o proveito. Mesmo quando o ganho fosse dor.

E a besta, atenta, sempre à coca, ataca! Apanha-me cansada, exaurida deste meu destino/missão que escolhi de me dar aos outros e… ataca! Deixa-me siderada. Trucidada. Os braços/tentáculos escorridos ao longo do corpo. A deixar passar, tão perto que lhes sinto o hálito, todos os meus recursos.

Às vezes não me resta senão o olhar. E, num esforço que só eu sei, foco-o no que quero, apelo para o que me resta de esperança de alguma oferta da vida. Nessas alturas, a partenaire de voz maviosa aparece, o sorriso cada vez mais doce, o colo cada vez mais amplo. Desfoco a sua imagem. Vejo para além, por detrás. Aí está a realidade que quero. Sei que pudesse eu levantar um braço e não me escaparia. Mas como? Inerte este corpo, desintegrado, devorada a vontade, curto-circuitadas as sinapses deste meu cérebro de lama?

Alguém que me pegue ao colo, por favor. E me ajude a jogar este jogo de ganhar vidas. Se for exímio e treinado na arte, talvez possa dar bom uso às duas armas que me restam: ainda tenho o olhar e o sorriso.

Segunda-feira, Setembro 19, 2011

 

ONOMATOPEIA?

Catrapuz!...

Sábado, Setembro 10, 2011

 

REVISÕES DA MATÉRIA DADA

Recurso. Etimologicamente, o acto de desfazer caminho, a possibilidade de fazer um caminho novo, re+cursus. Diz-me o Priberam que a palavra designa um meio para alcançar um fim, um remédio, uma cura, um refúgio, uma protecção e que a conjugação do verbo corresponde ao acto de procurar ajuda ou socorro.

Fico a pensar... Como é habitual nesta nossa complicada e riquíssima língua, chego à conclusão de que estou perante um daqueles conceitos ambíguos, uma faca de dois gumes, um terreno pouco seguro, não propriamente escorregadio, antes acidentado. Porque formulo duas frases. De significado contrário e antagónico. E as duas são verdadeiras ou, pelo menos, a observação dos homens e a vida vivida, disso me convencem: "qualquer pessoa gostaria de ser considerada um recurso" e "ninguém gosta de ser considerado um recurso".

"Conta incondicionalmente comigo". "Podes recorrer a mim sempre que precisares". "Não te esqueças de quem gosta de ti". "Não hesites em procurar-me".

"Eu não sou um pneu sobresselente". "Só se lembra de mim quando precisa". "Tarde piaste". "Cada um faz a cama em que se deita".

Reflicto nisto e, como sempre, fico maravilhada perante a riqueza da natureza humana. Efectivamente, "o Homem é ele próprio e a circunstância". E as diferentes experiências, os outros que interagem connosco, a nossa própria (inadmitida?) incoerência, tornam-nos capazes da expressão da antítese na vida que somos.

Fico inquieta. Profissionalmente eu sou, por excelência, um recurso. Esforço-me por ser de qualidade. Empenho-me, entrego-me, estudo para que, o recurso que sou, tenha o valor que é esperado. Mas não estou imune à minha substância humana. Onde está o momento em que, legitimamente, posso começar a assobiar para o lado? Se não me pagarem? Se não me respeitarem? Se não souberem aproveitar-me enquanto recurso... e dos bons?

E no resto da minha vida? Quando é que aquela linha finíssima - que separa a disponibilidade, a tolerância e o amor ao próximo, da ausência de amor-próprio e auto-estima - aparece, ainda que apenas pontilhada? Nesse momento que direito tenho, enquanto responsável por este ser que sou eu, o único com quem viverei para o resto da vida, como dizia o Oscar Wilde, de assobiar para o lado mas de mim? O que se torna "um recurso" nesse instante?

Volto atrás nestes enleios em que me distraio, para perceber que "recurso" pressupõe "relação". Já devias saber! Tudo pressupõe relação. Pelo menos na tua vida, senhora! E que, por esse motivo, é com o outro que eu sou um recurso (ou que ele é um recurso para mim). E isso basta para que tudo se legitime, para que tenha o direito de ser incondicionalmente disponível ou incondicionalmente indisponível. Na mesma hora, no mesmo instante. Assim difiram as circunstâncias. Até porque, como me ensinou o mestre (que saudades): "Quem não se sente não é filho de boa gente".

Quarta-feira, Setembro 07, 2011

 

A FÉ. SEMPRE A FÉ.

Cresci na igreja. Literalmente. A minha mãe, vicentina caridosa, dedicado membro da Acção Católica, senhora da alta burguesia da terra, aos sábados, acompanhada da sua dilecta amiga, senhora de uma burguesia ainda mais alta, limpava o pó aos altares da Sé Catedral e compunha arranjos de flores que fariam a comunidade soltar heréticos murmúrios de admiração durante as eucaristias de domingo, face à clara demonstração de humilde entrega cristã.

Eu acompanhava-as sempre. E tinha um altar próprio, só meu, de que cuidava. À entrada da igreja (edifício moderníssimo, imponente, construído no início dos anos 70, controverso e, para sempre, inacabado), à esquerda, a pia baptismal era encimada por um Cristo na cruz, figura dum realismo que dissonava de forma chocante com o minimalismo estilizado do edifício. Talvez por me sentir atraída por esse contraste grosseiro, deleitava-me a limpar, com um paninho e uma escova de dentes usada, cada chaga do corpo daquele desgraçado. Enquanto o fazia, acho que rezava. Mas já nem sei bem. Talvez o fizesse da forma mais pura que pode haver, porque imbuída de uma verdadeira compaixão. Ao passar os dedos por cada ferida aberta, sentia a dor vivida e condoía-me. Havia qualquer coisa de masoquista no acto (“todo o sadismo é masoquismo”, diz-me a mestre), um prazer associado à dor. Uma conexão que o meu cérebro instintiva e automaticamente ainda hoje faz entre sofrimento e gozo… (“sofrer para bela ser”; “no pain, no gain”).

Fui à missa mais do que uma vez por semana durante anos. Conhecia a liturgia quase de cor. Era dos leitores mais requisitados por ter uma voz bonita, clara e ser tão novinha que ficava bem no púlpito. Uma promessa… Ouvi histórias dos “chamados”. Aqueles que o Pai escolhia para integrarem o seu rebanho, para serem as suas ovelhas de ouro. Pedi-lhe sinais para o caminho. E ele deu-mos. Tornando-me tão devassa e voraz pela vida que me mostrou, inequivocamente, a impossibilidade de me confinar a um convento ou mesmo a uma leve entrega leiga à “causa”.

Aos poucos, perdi a necessidade de “lá” ir tantas vezes. Hoje, quando vou à missa, é de visita a casa de um amigo a cujo convite respondo. E como o que ele me serve. E só não bebo porque não há maneira dos homens que mandam na igreja, perceberem que o que faz sentido é o pão com o vinho (comungar das duas espécies, como me ensinou a mãe).

E sei as senhas e as contra-senhas todas. Respondo ao papaguear próprio, ao argumento decorado. Sei as falas e entro nos tempos certos. Algumas saem-me da boca. Outras, do coração. Há, no entanto, uma frase que resume e define o que é, para mim, a fé. É dita aquando do convite para a mesa e funciona como uma afirmação de que acredito, de que, de verdade, existe algo que me toca incondicionalmente.

Aprendi agora – que tenho ido tão poucas vezes às suas festas – que posso repeti-la sempre que me apetecer, como se faz quando se envia um sms a um amigo só para se dizer o quanto se gosta dele ou falarmos das saudades que sentimos. E, quando o faço, sinto, em toda a plenitude, o efeito destas palavras em mim: “Senhor, eu não sou digna de que entreis em minha morada. Mas dizei uma palavra e eu serei salva”.


Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

 

COISAS DE BRUXAS?

Ontem falaram-me do "caldeirão". Exactamente o que eu precisava para poder concluir a metamorfose. Et voilá!...

Terça-feira, Fevereiro 08, 2011

 

REMINDERS

"ÓRBITA CEMITÉRIO" - Lucía Etxebarria, Beatriz e os Corpos Celestes


Yet come to me in my dreams, that I may live
My very life again though cold and death
Come back to be my dreams, that I may give
Pulse for pulse, breath for breath:
Speak low, lean low
As long ago, my love, how long ago.

CHRISTINA GEORGINA ROSSETTI, Echo


"NO LUGAR DO MEDO"- Lucía Etxebarria, Beatriz e os Corpos Celestes

Lá onde começa o desejo, no lugar do medo, onde nada tem nome e nada é, antes parece.

CRISTINA PERI ROSSI, Desastres Íntimos


"LUZ DE UMA ESTRELA MORTA"- Lucía Etxebarria, Beatriz e os Corpos Celestes
Gostaria de pensar que existe alguma coisa certa no aforismo AMOR VINCIT OMNIA. Mas se alguma coisa aprendi nesta curta e triste vida é que essa frase feita é mentira. E o que nela acreditar, um insensato.

DONNA TART, O Segredo


FINAL - Lucía Etxebarria, Beatriz e os Corpos Celestes

You want a reason: I'll give you reasons, don't change your ideals with every season, just look inside yourself for information and make your own life a celebration, you've got the power, power to be strong, an education that should be lifelong, don't be a victim of expectations, just make your own life a celebration.


THE BELOVED, Conscience

 

"A CIDADE EM RUÍNAS"

O início do segundo capítulo de um dos livros preferidos da minha vida, marcou-me tanto que, nas mais variadas situações, quando falo com alguém em sofrimento, acabo por me lembrar daquele parágrafo e costumo referir-me a ele, embora sem o citar ipsis verbis que a minha memória não é assim tão prodigiosa e porque, na verdade, o que importa é a ideia.

Hoje, no entanto, é para mim que o quero lembrar. E retirei da estante o livro que está todo de folhas soltas, provavelmente pelos maus tratos que lhe dei nas vezes que o li. Porque a reverência com que trato os livros, não inclui cuidados com o objecto que são. Antes pelo contrário. Gosto de os vincar, riscar, deixá-los de lombada quebrada. Se um livro passa por mim incólume, pronto a ser leiloado no e-bay com a descrição "praticamente novo", é porque não me deixou absolutamente nada.

Por ser para mim, quero que estejam lá as palavrinhas todas, tal como as bebi. E, para que se gravem indelevelmente, quero deixa-las aqui escritas. Como se fosse uma cábula de harmónio como as que fazia para os testes mas que acabava por nunca usar, uma vez que a transcrição da matéria para o papel que dobraria cuidadosamente para enfiar em qualquer orifício de fácil acesso, era suficiente para que não mais me esquecesse do que lá estava.

"Não tentes enterrar a dor: estender-se-á pela terra, sob os teus pés; infiltrar-se-á na água que tenhas de beber e envenenar-te-á o sangue. As feridas fecham-se, mas ficam sempre cicatrizes mais ou menos visíveis que voltarão a incomodar quando mudar o tempo, lembrando-te na pele a sua existência e, com ela, o golpe que as originou. E a recordação do golpe afectará as decisões futuras, criará medos inúteis e tristezas vis, e crescerás como uma criatura apagada e cobarde. Para quê deixar para trás a cidade onde caíste? Pela vã esperança de que, noutro local, num clima mais benigno, já não te doerão as cicatrizes e beberás uma água mais limpa? Em teu redor erguer-se-ão as mesmas ruínas da tua vida porque, para onde quer que vás, levarás a cidade contigo. Não há terra nova nem mar novo, a vida que não aproveitaste ficará por aproveitar em qualquer parte do Mundo."

LÚCIA ETXEBARRIA, Beatriz e os Corpos Celestes

Domingo, Fevereiro 06, 2011

 

ÓBITO

Na terra onde nasci, faz-se uma festa quando morre alguém, É uma coisa que os "brancos" nunca perceberam muito bem, por mais cafrializados que tivessem ficado. Bebe-se, come-se, xinguila-se e chora-se muito. Esta parte é imprescindível e, para isso, contratam-se as carpideiras, talvez no que de mais próximo há com os enterros da província. Um morto tem de ser chorado. Aos gritos, em soluços e gemidos angustiantemente prolongados, acompanhados de arrepelar de cabelos e espasmos dos membros superiores e inferiores.

Nos meus mortos, nunca houve nada disso. Somos todos demasiado discretos, demasiado contidos na nossa dor para que nos permitíssemos tais figuras. De tal forma que, no enterro da minha mãe, de repente, a prima da empregada que havia começado a trabalhar na nossa casa há 15 dias, desatou numa gritaria que a todos assustou. Africana de origem, deve ter pensado que éramos uns desleixados, uns filhos ingratos, uma família miserável por deixar que aquele ente tão querido se fosse assim, sem o devido acompanhamento sonoro.

Sete dias depois, lá na banda, "varrem-se as cinzas". E há mais festa, muita comida e bebida, muita incorporação de espíritos, na verdadeira celebração da passagem que é a morte. Gente tão sábia aquela...

Eu não sei fazer nada disso. E devia. Porque, desde pequena, sempre achei que seria capaz de matar alguém, numa situação-para-mim-limite o que, necessariamente, me dá maior responsabilidade na forma como deveria cuidar do defunto resultante. A verdade é que só consigo imaginar-me a braços com o morto, literalmente. Sem saber como chorá-lo porque o decoro não me permite gritar, nem gemer, nem soltar sequer um inaudível soluço. Sem saber onde o guardar, sem ter a quem confessar que o homicídio cometido só foi porque teve mesmo de ser e que eu só quero tratar de tudo com a dignidade que o morto deveria merecer, embora tenha cometido a loucura de ceder à exaustão, acertando-lhe um tiro certeiro.

O problema é que, sem os rituais devidos, arrisco-me a ser perseguida pela sua alma penada e danada. O que me levará ao Inferno em vida.

Sexta-feira, Fevereiro 04, 2011

 

NA MANHÃ DE 4 DE FEVEREIRO

Os caminhos interiores, inevitáveis para a a nossa evolução, escolhemo-los nós. E, imprescindível para que que se façam, é a responsabilidade que assumimos perante as escolhas que vamos fazendo ao longo do percurso que, se bem feito, é tortuoso e cheio de atalhos que nem sempre sabemos a que nos conduzem. A única certeza que temos é de seguir em frente, ainda que, por vezes, acabemos num ponto por onde já passámos e tenhamos que lidar com a perda de tempo, de sensação de energia desperdiçada, de andar a dar voltas. Mas isso faz parte e é também caminho. É sinal de que temos de voltar atrás e escolher outro percurso. Claro que temos que nos disponibilizar para isso e aceitar como necessário e incontornável. E, é nessas alturas que nos faz bem lembrar o grande Frankl e exercer a última das nossas liberdades que é escolher como reagir perante as circunstâncias do destino. Sendo, iminentemente uma pregorrativa nossa, só a nós diz respeito. E não escutarmos o nosso coração, o corpo que nos dá sinais, as emoções que sentimos é que é o verdadeiro desperdício de vida. Acima de tudo, o que deve pautar as nossas decisões é o nosso querer estar bem, o sabermos defender-nos do que nos faz mal e não nos obrigarmos a aceitar o que nos dói, só porque sabemos que o caminho é de dor. Que é, com efeito. Mas dores há muitas e algumas não fazem outro sentido senão aniquilarmos a nossa vontade e passarmos por cima do que, em insconsciência, vemos como consequência lógica. A responsabilidade obriga-nos ao discernimento. e a sabermos destrinçar o trigo do joio, o necessário e o acessório, o dispensável e, até, o que pode ser destruidor. O respeito pelo outro não implica a surdez, a atitude autista perante o que o outro nos faz sentir, em prol da concretização de um objectivo, de alcançar a meta que temos em mente.

Os caminhos são únicos e individuais. Cedermos a acompanhar o caminho de outro, não pode implicar sofrermos com as escolhas do outro.

Para mim, é claro. Se puder fazê-lo, escolherei que seja sem dar o corpo às balas, sem me maltratar. Porque não é o outro que me faz mal. Sou eu que o permito.

E já sou boa demais, já me respeito o suficiente para me obrigar a ter essa clarividência e assumir as consequências. Tudo o resto roça o masoquismo bacoco que nada serve. Posso tenho uma vida plena, se assim o quiser, se a isso me permitir. Nada justifica uma atitude diferente. Só custa empurrar o amor para a barriga. Que é o lugar onde pertence e onde tenho que o alimentar.

Na minha terra, hoje canta-se que, neste dia, "os heróis quebraram as algemas". Poderá haver melhor imagem?

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2011

 

NOVO INQUILINO

Hoje aprendi que o amor não se guarda no coração. O peito é lugar demasiado perto da garganta, demasiado perto da boca. O que faz com que, ao pequeno descuido, se nos soltem pedaços, palavras, soluços, gemidos, queixumes, arroubos espampanantes de paixão e declarações de amor ardente. Que se perdem na intensidade da projecção com que são emitidos. Demasiada potência, cavalos a mais, num veículo que serve um percurso tão curto. Por outro lado, se voraz, também se alimenta com pouco e rápido, como um hipoglicémico que arriba por cinco minutos com um pacote de açúcar, para cair redondo de seguida.

O verdadeiro amor guarda-se mais abaixo. Algures entre o estômago e o baixo-ventre, parece que no plexo solar, que disso não percebo nada, embora devesse. Faz-me sentido. Afigura-se-me um lugar mais seguro. Nem entra nem sai nada inadvertidamente. Não está vulnerável aos caprichos do clima. Mantém uma temperatura mais ou menos constante. Conforta. Como uma sopa saborosa e quente num dia frio de inverno. E - disseram-me e eu acredito - este é um amor mais rico, mais completo. Se calhar por estar mais fundo em nós, é amor pelo outro mas também amor pelo próprio. E, por isso, nunca nos deixa ficar mal, nunca nos falta, não nos abandona. Não se nos escapa boca fora, ao primeiro bocejo de tédio ou ao primeiro arranco de dor. Também é mais perene. Não se volatiza. É de confiança, no fundo.

O problema surge quando o espaço para esse amor está ocupado e ele é obrigado a morar no andar de cima, à face da rua ou, nos casos mais graves, nas sombrias águas-furtadas da caixa craniana. Nessas situações impõe-se a emissão da ordem de despejo do inquilino ilegítimo, sem recurso à usucapião, sejam quantos forem os anos de ocupação. Mas é um processo que tem de ser bem conduzido. Primeiro, há que conhecer muito bem o indesejável sujeito. Torná-lo objecto de desvelado estudo. Usar de todas as artimanhas para lhe conquistar a confiança. Saber dele o mais possível. Dominar-lhe a razão de existir. Levá-lo, com recurso ao que for necessário, à nudez total, à palma da nossa mão. E, nesse momento, sem hesitações, desferir o golpe de misericórdia, doa o que doer. Doa a quem doer. Doa como doer.


Hoje, precisei de me irritar muito contigo, mãe. Já chega de me apareceres em sonhos sempre com um ar descontente, tu que tinhas um dos sorrisos mais bonitos que já vi. Aquele espaço que ocupaste já não é teu. Preciso dele, mãe. Estou a pôr-te fora, mais às tuas expectativas em relação a mim, mais à minha falta de segurança e ao meu estado de alerta permanente, como se pudesse assegurar-te de que nunca seríamos apanhadas de surpresa.

Sábado, Janeiro 22, 2011

 

PRIVILÉGIOS DE FILHA

Uma vez disseram-me que, sendo eu uma filha predilecta de Deus, nada do que lhe pedisse me seria alguma vez recusado.

Ao contrário de me deixar descansada e confiante, aquela afirmação só concorreu para acicatar as minhas dúvidas e acentuar a minha noção de responsabilidade.

Primeiro: porque serei eu uma filha predilecta de Deus? Talvez porque me porte de acordo com o que ele acha bem. Caramba... tenho de ter cuidado então.

Segundo: porque nada me será recusado? Talvez porque seja sempre muito sensata no que peço. Caramba... tenho de ter cuidado então.

Mas se sou filha - e ainda mais das predilectas - não me será permitido arriscar? Não terá chegado o tempo de acreditar que posso pedir tudo, sem filtro, sem censura, só porque é o que preciso desesperadamente? Sem medo de, depois, não saber viver com o "não", se ele vier? Porque, enquanto pai, se não me der a resposta que quero, é porque entende que não é o melhor para mim. E há-de encontrar forma de me ajudar a ver isso mesmo, enquanto me senta nos seus joelhos, encosta a minha cansada cabeça no seu peito e me enche do seu Amor.

Sexta-feira, Janeiro 21, 2011

 

DEIXAR FALAR OS DEMÓNIOS

Sempre me acusaram de ser demasiado voluntariosa na forma como tomo decisões. Muitas vezes, fui chamada à atenção por não levar em linha de conta a opinião de quem acaba por ser arrastado, sem espaço para expressão própria, para as escolhas que faço, para aquilo a que me proponho.

Durante anos, foi-me impossível pedir ajuda, fosse para o que fosse, desde as coisas mais prosaicas aos assuntos mais sérios e, ainda mais, aceitá-la. Alguns anos de terapia depois, sou hoje um pouco mais capaz, embora ainda não me seja absolutamente confortável encontrar-me em situações do género que, muito estupidamente, me fazem sentir uma vulnerabilidade que me assusta. Profissionalmente melhorei bastante: apesar da minha mania de que não há quem faça melhor do que eu (e o povo não ajuda quando adagia que "se queres bem feito, fá-lo tu") já consigo delegar, já consigo acreditar que outros podem fazer, tanto - mas ainda não tão bem - quanto eu.

Ontem tomei contacto com partes de mim que, em certa medida, podem "explicar" porque sou assim. E quando algo se torna consciente e estamos empenhados num compromisso de responsabilidade, não podemos senão encarar os demónios que nos habitam e acolhê-los como nossos.

Desde muito pequena que fui sobre-responsabilizada. Tinha 4 anos quando, por castigo, fui obrigada a subir sozinha num elevador, por ter partido uns copos que a minha mãe acabara de comprar e cujo transporte entregara aos meus cuidados... Aos 15 anos, fiquei a viver por minha conta, sem ninguém, com um orçamento mensal disponível superior ao dos meus colegas do liceu em, pelo menos, 500%, com os pais a 7000 km de distância, com quem falava, ao telefone e com sorte, uma vez por mês. Podia tudo. E por isso, sentia o peso de não poder nada. Nunca me perdoariam qualquer quebra da confiança depositada em mim. Havia sido criada, educada, moldada para cumprir o que era esperado. Não havia pior pecado do que ignorar os talentos com que deus pai nosso senhor nos tinha brindado. E isso incluía ser capaz de, competentemente, tomar conta de mim. E fazia noitadas mas não faltava a uma aula. E fumava charros e tomava speeds mas tinha óptimas notas. E não comia mas era gorda.

Aprendi muito cedo que só podia contar comigo. Que o colo era bom mas condicionado ao meu desempenho. Que, se queria (e se eu era de querer, até porque outra coisa não me seria permitida) tinha que me esgadanhar para o conseguir. Sempre a história dos talentos a render. E foi assim que aprendi a não precisar de ninguém, para não ter de tropeçar na ausência. Desenvolvi mil capacidades e competências (há dias chamaram-me centro comercial, tal é o número e diversidade de coisas que sei fazer e de serviços que posso prestar). Para ser auto-suficiente. Para garantir a minha sobrevivência mesmo no mais inóspito lugar do mundo que era onde eu vivia.

E por ser tanto aquilo a que tinha de dar atenção, não tive nunca tempo para abrir espaço para uma alteração do que vivia. Acho que nem nunca me passou pela cabeça que pudesse haver outras formas de vida. Por defesa e sentido de eficácia, aprendi a ser arrogante, a decidir sozinha, a "pôr e dispor" de tudo na minha vida. E sem tempo a perder. Para não ser atropelada pelos acontecimentos. Habituei-me a conseguir tudo o que queria no momento seguinte à tomada de consciência do querer. Só dependia de mim, não é verdade? Quero. Tenho. Já.

Ontem, os demónios que me vêm atazanando há meses, deram-me a notícia que, intimamente, eu já conhecia mas temia enfrentar: as coisas já não são assim, maria carolina. Quiseste aprender a confiar, não foi? Achaste que te podias permitir contar com, partilhar, acreditar no outro? Pois é... com isso vem uma coisa que se chama entregar. E fazê-lo, mas fazê-lo bem, significa que não és tu que controlas nada. Que não és tu que decides. Não és tu que dizes quando. Tens, agora, finalmente, a última prova para superar, nesse assumir pleno de quem és a que te propuseste. A espera. A derradeira barreira que te separa da entrega total. Aprende. Aguenta. Segura-te. ESPERA.

Terça-feira, Janeiro 18, 2011

 

CTRL+ALT+DEL

Chegou com aquele vinco entre as sobrancelhas, o sorriso de sempre, o olhar directo, franco, de pessoa em quem se confia. Detenho-me um pouco a observá-la, menos disfarçadamente do que sempre faço e apercebo-me de há qualquer coisa que não joga. O conjunto é harmonioso, agradável. Mas aquele cenho franzido não condiz com o sorriso aberto. E os olhos... brilham de quê?

Dou-lhe silêncio. Abro em mim aquele espaço interior que só existe neste espaço físico. Naquele momento, somos "dois animais num quarto", em plena sintonia. Preparo-me para o que aí vem. Por mais vezes que o faça, por mais anos que passem, é sempre uma surpresa. E, hoje, sei que vai ser em grande. Sinto a densidade que se cria no ar entre nós. O canal da ressonância que fica no on.

Ela levanta a cabeça, olha-me bem fundo, ignorante da teoria subjacente ao processo em curso mas plenamente consciente do que nos faz sentir e, som por som, cada inflexão da voz dando conta da emoção subjacente, inicia o striptease à frente do espelho que sou eu.

Mas, de repente, já não sou espelho. Sou eu que me vejo reflectida ali. A dor é minha. O desalento é meu. É minha a procura do sentido. O desejo... há desejo? Apagar a memória. Entrar numa realidade de filme de ficção científica e poder orgulhosamente ser pioneira num lançamento no espaço desconhecido e cheio de perigos, em busca de novas galáxias. Ou testar pílulas douradas que permitem apagar qualquer memória, numa promessa dum agora novinho em folha. Ir, ir, ir. Embora daqui. Da vida que me zanga porque já nem sequer me cansa. "Começar de novo e contar comigo". Que tolice de conversa! Há lá outra forma de começar? A serenidade que advém das decisões que se tomam, das escolhas que se fazem. O tédio que se segue. A pergunta que se insinua e nos estraga a trip: para quê o esforço? Amanhã vou acordar de novo. Mais ou menos à mesma hora, nos mesmos lençóis, repetir os gestos de sempre sempre sempre sempre. Quanto da minha vida depende de mim, afinal? Quanto muda eu tomar firmemente as rédeas nas mãos? Eu ter a ilusão de que tomo firmemente as rédeas nas mãos... A única possibilidade de isso acontecer seria se só houvesse amanhã. E, talvez, um bocadinho do hoje, do agora. Para podermos preparar uma "bucha" para a viagem. De amanhã, claro.

Sábado, Janeiro 15, 2011

 

O NOJO

Há um momento em que olhamos para o espelho e a imagem que ele nos devolve não é de quem vive da fé. É de alguém que está prestes a perder toda a auto-estima, toda capacidade de sentir respeito por si próprio.

E é nesse momento que faz sentido que, ao luto, se chame nojo.

Sexta-feira, Janeiro 14, 2011

 

O PROVATÓRIO

Quando era pequena, a minha mãe ajoelhava-se todas as noites junto à minha cabeceira, do lado esquerdo, para rezarmos. Eu adorava aquele ritual: naquele momento a mãe era só minha, bebia-lhe o cheiro, sentia-lhe o hálito quente, os dedos longos e esguios a afagarem-me os cabelos. Durante muito tempo esse era o meu momento alto do dia. Ela ia dizendo os nomes das pessoas por quem pedíamos e eu repetia: "Pelo pai". "Pelo pai". "Pela professora Novita". "Pela professora Novita". Terminávamos sempre a pedir "pelos meus inimigos", que era algo que me fazia sentir qualquer coisa entre um anjo e uma santa. Pelo meio, havia um pedido que lembro-me de ter carecido de explicação, não sei ao fim de quantas repetições. Presumo que não muitas porque, passe a imodéstia, não era fácil porem-me a dizer coisas que não sabia o que significavam. Pedíamos "pelas almas do purgatório". Disseram-me que eram aquelas almas das pessoas que morriam e que não estavam nem no Inferno nem no Céu. Porque não tinham sido tão más que merecessem o fogo eterno mas também não tinham sido tão boas que tivessem ganho entrada directa no Céu. Algumas haveria, ainda, que só tinham cometido um ou outro pecadilho menor e que bastariam umas quantas orações de meninos puros e bem-comportados para ganharem o passe almejado. Ciente da importância que eu poderia ter na forma como as pobres das almas viveriam para sempre (que é mesmo infinito quando se tem 4 ou 5 anos), empenhava-me no fervor com que repetia essa parte da oração da noite.

Depois, ficava a pensar nos que nunca conseguiriam sair dali. O Inferno era um sítio tão mau que nem me atrevia a pensar nele, a não ser quando me descuidava e fazia alguma coisa passível de me enviar directa para lá. E ficava cheia de medo, pedia muito perdão e jurava tornar-me uma menina melhor, quanto mais não fosse para ir para o purgatório e ainda ter alguma chance de salvação. Mas e os que não teriam nunca? Como seria a vida naquele sítio? Só há poucos anos aprendi que o Limbo ainda é outro local porque, para mim, era tudo a mesma coisa: um terreno de "pendurados". De almas semi-penadas, à deriva, à mercê das orações que, na terra, os homens fizessem, ou ao cumprimento de uma pena indeterminada, sem datas para entrevistas de avaliação com um júri que determinasse a habilitação para a subida. E haveria o risco da descida? Seria que, no purgatório, se poderia cometer algum deslize que não só atrasasse o processo de purga mas, pior, levasse à emissão imediata de um salvo-conduto para o Inferno?

Ainda hoje, independentemente do que é para a Igreja Católica, para mim o purgatório é o pior dos lugares. Só consigo imaginar um lugar a branco e cinzento, nem preto sequer, com gente a deambular, de expressões vazias, de braços inúteis caídos ao longo do corpo mas cabeças erguidas em sinal de prontidão para aceitação dos desígnios. Totalmente ignorantes quanto ao seu destino final, cientes apenas da sua limitada capacidade de intervenção, sem regras nem normas nem sequer memorandos que estabeleçam o que pode ser considerado "um bom comportamento" que alivie a pena 2 séculos ou um "mau comportamento" que, inadvertidamente tido, os deixe para sempre (com a conotação que tinha aos 4 ou 5 anos) à espera.

E que sentido tem esse local? Para que serve, afinal? Pergunto-me eu, adulta. "É um local para se meter a mão na consciência" ouço a minha mãe sussurrar-me ao ouvido. E o que é isso, mãe? O que é meter a mão na consciência? "É percebermos que errámos. Que fizemos alguma coisa que não estava certa". Que pecámos? "Sim. Tudo o que fazemos que não está certo, sobretudo aos outros, pode ser visto como um pecado". Então, o purgatório é uma pena que se cumpre, mãe? "Podes vê-lo assim. É a tua oportunidade de te redimires. De assumires a tua culpa e de esperares, com humildade e espírito de abnegação que o tempo da remissão chegue. E se o fizeres com fé e convicção, talvez algumas orações que meninos puros e bem-comportados façam com as suas mães à noite, à cabeceira da cama, possam contribuir para te aliviar a espera".

Quinta-feira, Janeiro 13, 2011

 

EU EXIJO! E SOU FELIZ.

Durante anos diziam-me exigente. Amigos, amores, gente provisória e/ou passageira, mais cedo ou mais tarde atiravam-me com essa. Eu sentia-me ofendida, baralhada com a avaliação grosseira de quem, nitidamente, não tinha a menor noção do quão frustrada eu vivia por não ter coragem, melhor, por não sentir legitimidade para fazer qualquer tipo de exigência. Via-me sempre contente com o que condescendiam em oferecer-me, fosse em que área fosse, achando, ainda por cima, que devia ficar muito agradecida com o gesto. Exigente, eu? Exigentes eram aqueles a quem eu ouvia a voz, aqueles que andavam de cabeça muito erguida, como só a confiança de se ter direito a tudo permite. Exigentes eram aqueles que diziam "não" com a mesma facilidade com que diziam "sim". Bem... talvez eu até invejasse um pouco os que eram capazes de dizer mais vezes "não". Porque é o que se faz quando o que nos dão não nos satisfaz. Como se o "sim", a aceitação, não correspondesse a uma atitude (no sentido activo) mas, apenas, a um assentimento.

Mais tarde, num contexto muito específico, comecei a questionar a veracidade da minha exigência. Aceitei que, nesse tempo e nesse viver, talvez fosse exigente, com efeito. Ainda assim, tratei de encontrar uma razão que, não nascendo em mim, não me comprometia nem culpava: exigia na medida em que sabia que o outro podia dar. Era como se aquele comportamento que, na realidade, eu condenava (por isso me ofendia) tivesse a atenuante de corresponder à minha missão de ajudar o outro a pôr todos os talentos a render!...

Há dias, numa das imensas conversas que tenho tido nos últimos tempos, uma Amiga deixou-me a pensar. Falando acerca da mudança e consequente evolução que ocorre nas pessoas que se predispõem a isso, referiu a diferença entre "exigência" e "intransigência". E, como sempre me acontece, na minha cabeça, as peças de dominó desataram todas a cair, a fazer aqueles carreiros fantásticos, desenhando um percurso sinuoso mas tão bem encaixado.

O que eu fui, toda a vida, foi absolutamente intransigente: com os outros, comigo, com a vida toda. Rígida, quantas vezes monolítica, incapaz de me moldar às circunstâncias e de me colocar no lugar do outro para perceber como podiam ser sentidas as minhas, então chamadas "exigências". Por isso me ofendia, por isso me sentia lograda. Pudera!... Como pode ser satisfeito alguém intransigente? O que esse comportamento causa nos outros, caramba?

A intransigência, sim, é algo que atiro para cima dos outros. Sob o disfarce da satisfação das minhas necessidades, carrego a responsabilidade em ombros alheios, não permitindo que haja formas diferentes daquelas que fantasio e alimento, que podem viver no outro e vir ao meu encontro. Eu é que decido de que forma (e só daquela e mais nenhuma) o outro me vai dar o que eu quero.

Ao contrário, a exigência corresponde a uma atitude nobre, quanto mais não seja, pela responsabilidade que implica. Ao ser exigente, quer comigo quer com os outros quer com a vida em geral, comprometo-me com uma abertura às possibilidades de satisfação. Não interessa o caminho, não interessam os meios. Podem ser os mais diversos, tantos quantos outros eu tenha na minha vida. A exigência deve visar apenas o fim, a concretização do objectivo que me proponho atingir, a satisfação da necessidade que nasceu em mim. E, ao ser exigente, aumento a minha liberdade, a minha possibilidade de dizer "não", sem culpa nem frustração. Porque não fechei alternativas nem impus o meu rígido código de boas práticas para as respostas.

Terça-feira, Janeiro 11, 2011

 

STAR WARS

Parte III

No início, quando o Universo era Uno, Lúcifer fora o anjo preferido de Deus. No entanto, como um filho caprichoso, permitiu-se uma identificação tal com o pai que acabou por se achar, ele próprio, também Deus.


Ainda que com a dor do pai que castiga o filho predilecto, Deus baniu-o para as profundezas da terra, onde, longe da sua luz, imperava o breu e o gelo.


Lúcifer, para se aquecer, acendeu um pequeno fogo. A pouco e pouco, foi sentindo-se mais confortável, com luz e calor, o fogo cada vez maior. E, de repente, a meio de um gesto de esfregar as mãos... desatou a rir. E riu sem parar, quase a engasgar-se tal foi a excitação que lhe provocou a descoberta acabada de fazer: Deus, anterior Rei de tudo o que existia, havia acabado de dividir o Universo em dois!...



Parte II

Judas Iscariotes era o apóstolo preferido de Jesus. Na verdade, era o único que entendia a profundidade dos ensinamentos do profeta, aquele que sabia o que queria dizer "o meu reino não é deste mundo". Os outros, fiéis. Mas uma espécie de rebanho de ovelhas que ouviam e pastavam.


Foi por isso que Jesus pediu a Judas que lhe fizesse o favor de o ajudar a completar a sua missão na terra. Judas não queria aceitar a incumbência. Amava demasiado o mestre para ser o seu traidor. Mas Jesus fê-lo ver que seria o único, de entre todos os apóstolos, capaz de assumir a responsabilidade e, naturalmente, as consequências de tal acto, por lhe encontrar o sentido. E, assim, Judas tornou-se o banido, a encarnação do mal. E, de novo, o Universo ficou dividido: o Bem, imolado na cruz e o Mal, com o pagamento da traição num saco de moedas.



Parte I

Se divido entre o Mal e o Bem, perco. Quando aprendo que um e outro são apenas as duas faces do todo, ganho.

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