Quinta-feira, Março 05, 2009

 

O QUE NOS TOCA INCONDICIONALMENTE

Ainda ontem me perguntava se sou assim pouco contestatária por desleixo, por indiferença, por inércia, por falta de motivação ou se é mesmo por escolha, resultado da minha vontade que, na insanidade que me é própria e deriva em recusa de qualquer visão positiva de mim, nunca quero ver como determinada e firme. Vinham-me essas dúvidas a propósito do que me move quando, como ontem, entro numa igreja. Nunca são premeditadas essas minhas visitas. Acontecem pelo mais arbitrário acaso. E nem sei bem o que lá faço. Na maior parte das vezes, limito-me a olhar em volta, a sentir a vibração dos lugares, o cheiro caracterísco madeira-água das jarras com flores de pés em decomposição-cera-mofo-vago perfume das senhoras que rezam o terço, sempre com a minha impaciência característica, a desejar ter vontade de permanecer ali por mais tempo, obrigando-me a acalmar o relógio que tenho no peito cujo tique-taque dura um enésimo de segundo.

Questiono até a fé que conduz os meus passos. Será apenas o hábito, a educação, o estabelecido que me leva a associar a "Casa de Deus" à fé que tenho? E, se assim for, será fé, isto que tenho? Ou habituei-me e fui educada a chamar-lhe assim?

Afastei rapidamente as dúvidas, soprando-as para um outro momento em que me sentisse menos desconfortável, mais segura das minhas verdades. Não voltei a pensar nisto até há pouco.

Na verdade, acabei de ter uma resposta que não deixa espaço a qualquer discussão, a qualquer controvérsia que possa ter o intuito de travar em mim e comigo: obrigada meninas do oxalá. Depois do que vi, não há forma de não sentir a fé em todo o seu esplendor. Sem nenhuma dúvida.

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

 

SABEDORIA

Sabes o que me impressiona? É que um texto destes, escrito por uma heterossexual, casada, mãe de filhos, com cabecinha bem resolvida, pode fazer muitíssimo mais por nós do que o comportamento histérico-peixeiro-intelectual-amofinado-pretensioso-e muito muito muito fóbico dos defensores da classe.

Obrigada, Vieira. O mundo precisa tanto de pessoas assim!...


"Sou completamente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há uns anos não; há uns anos, quando ainda usava blaisers, sapatos de fivela e camiseiros às riscas, e o meu cérebro tinha a marcha atrás engatada à conta do curso de Direito que acabara de tirar, era contra. Porque achava que a instituição legal do casamento havia sido criada para pessoas de sexos diferentes, porque o fim primeiro do casamento seria a procriação mesmo que os casados não quisessem ou não pudessem ter filhos; porque, não pretendendo coarctar os direitos de ninguém, achava que se eles (ou elas) quisessem unir legalmente os trapinhos que o fizessem, mas que lhe chamassem outra coisa qualquer e não "casamento" as we know it. Hoje, leio pessoas como o Carreira das Neves e, além dos vómitos, sinto verdadeiro espanto por um dia ter pensado quase, quase, da mesma maneira. Hoje, acho que uma equivalência de direitos não se consegue com outra coisa qualquer, em especial no que concerne ao direito a ser feliz através de um compromisso mútuo que se quer ver jurídica e socialmente reconhecido em toda a sua dimensão (afectiva, conjugal, patrimonial). Se a questão das uniões de facto deu com os burrinhos na água (na prática, quase nada mudou), então que avancemos de vez para o casamento, hoje em dia cada vez mais liberto de vocações ancestrais. Se calhar, esta é uma das vantagens de os anos passarem por nós: aos quarenta, sinto mesmo que o que mais interessa é ser-se feliz porque o tempo voa e que isso também passa - e muito - por facilitar a felicidade dos outros. Parece-me simples."

Quarta-feira, Maio 21, 2008

 

40

Hoje faço 40 anos.

Num passado não muito distante mas em que este presente me parecia tão longínquo que era quase impossível imaginá-lo, esta idade assumia a forma tangível duma linha. Havia o "daqui até lá" terreno que calculava conhecer e conseguia projectar e o "a partir daí", território inóspito, intangível, quase místico, tão misterioso. Acho que me assustava um pouco. Já disse que a minha mãe falava dos seus 40 anos como a fase mais feliz da sua vida. E isso podia ser, se eu deixasse, praticamente aterrador. Num esforço de fantasia, via-me aos 40 e não me era possível sentir-me feliz. E, naturalmente, nem queria pensar nisso.

Desde há um ano que anseio pelo dia de hoje. Ao completar 39 lastimei o tempo que ainda faltava e consolei-me com a ideia - de que o meu pai tanto gostava - de que o dia a seguir era já o primeiro dos 40... Na verdade, penso que ainda estava cheia de medo de não ser exactamente real. De eu não ser exactamente real. Como se esta idade pudesse lançar alguma espécie de feitiço sobre o meu discernimento e, por isso, me fosse possível viver com a convicção da felicidade.

Afinal foi preciso mais um ano. Às vezes o meu pecado ainda é a impaciência, a veleidade de querer saber tudo já. Para controlar, ou ter a ilusão de controlo, só pode ser. É que hoje não sinto medo de nada! Estou tão completamente feliz que, verdadeiramente, não há como falar disso sem subestimar o que me vai cá dentro, sem lhe retirar a parte que as palavras não abrangem. Pelo menos não as minhas.

Sou, aos 40 anos, naquela idade em que, para mim, se afere a felicidade, uma mulher realizada, plena, preenchida, madura, confiante. Não me falta nada. Nada de nada. E sinto-me infinitamente maior do que o meu corpo. Como se de cada uma das minhas extremidades rompessem raios de luz.

Raios que me ligam à terra. Que me dão sustentabilidade. Raios que me projectam nos céus. Que me dão transcendência.

Segunda-feira, Março 24, 2008

 

BALIZAS

Hoje acordei agitada. Quando me perguntam porque não escrevo mais, respondo que só consigo fazê-lo quando já não me cabe dentro. Pois hoje, não coube. Mas, sem que pudesse fazer nada para contê-lo, saiu-me o conteúdo por todos os poros. Extravasou como acontece ao leite do fervedor naquele segundo em que nos viramos para agarrar na pega. E o que fica no fogão não serve para nada. Só para dar trabalho a limpar.

Devo ter ficado tão desalentada que a força suprema que me rege e orienta, fé que tenho incondicional, levou estes dedinhos e estes olhinhos, a dar com um texto maravilhoso. Foi-me directo ao coração. Deixo-vos um bocadinho, aquele que gostaria de ter escrito eu. Mas vão ler o resto.

Desde aquela altura em que fui viver sózinha, demasiado cedo, que percebi que se perdesse algumas rotinas perdia-me a mim. Precisava delas para darem lastro à minha vida e para, apoiada nelas, poder fazer todas as loucuras que achava que tinha e podia fazer. Por mais perdida que andasse nunca jantei sem ser de mesa posta, nunca bebi um chá sem pôr um pires por baixo da chávena, nunca comi peixe com talheres de carne. Pormenores? Não, rotinas que nos seguram, por pequenas e fúteis que sejam. Posso tergiversar (esta é uma das minhas palavras preferidas) em muitas coisas, mas tento manter alguns padrões na minha vida para não me sentir completamente perdida. Aprendi, à minha custa, que se questiono todas as regras fico sem regras nenhumas e perco-me definitivamente. Assim, vou-me segurando no que parece que não tem importância, mas que tem a importância de me fazer sentir pertença de um lugar e de alguém.

Quinta-feira, Março 20, 2008

 

CARAMBA!

A vida tem-me dado de surpresa tantas coisas que eu já devia saber lidar com o inesperado.

Segunda-feira, Março 17, 2008

 

POSTE DEDICADO *

Há muito tempo, quase ainda adolescente, li um livro da Patricia Highsmith que tem, em português, o título "As Pessoas Que Nos Batem à Porta". Nos últimos anos, tem-me vindo à ideia, repetidamente, essa frase, embora num contexto um pouco diferente daquele a que se refere a autora. No livro, ela fala dos vendedores, tão americanos, típicos dos anos 50-60, penso eu, que percorriam aquele imenso país a vender de tudo: avon, aspiradores, seguros... Na minha vida, a porta é um pouco mais simbólica, mas, no meu quadro de referências de memórias e sentires, acaba por ir dar ao tal título.

Há 4 anos, desataram a bater-me à porta. Durante muito tempo, tempo demais por ser tempo contra mim, contra o que sou, vivi sem porta onde alguém pudesse bater. Ou porque era tão espessa, de interior em lã de aço, que impedia a passagem de qualquer som ou porque, simplesmente, não existia. Nada interposto entre mim e os outros. Que, na prática, dá exactamente no mesmo. E imagino-me de olhos vítreos a vê-los, através deles, adormecida para os estímulos. Tal como estava alheia a tantas coisas. Porque, e ainda bem, temos um mecanismo de homeostase interna que, apesar de tudo, vai funcionando mesmo em momentos críticos, para não nos deixar alienar de todo.

Depois, de repente mas com aviso (que fui sentindo como um desentorpecimento nas entranhas), comecei a ouvir uns sons. Ainda não era gente - "que gente não bate assim" - mas já era vida. E desataram a entrar-me pela casa, eu com a porta já só tão encostada, que qualquer leve bater a abria. E, com o meu pedaço de céu, entrou um batalhão de anjos, seus guardiães e, agora, também meus.

Hoje, já tenho a porta fechada de novo. Só no trinco e é de madeira nobre. Serve muito bem a sua função. Estabelece a fronteira entre mim e o mundo mas deixa-me ouvir tudo o que se passa na rua. Abro-a quando quero e, às vezes, encontro alguém que ainda não bateu mas estava a pensar nisso. Outras vezes ouço bater e deixo o coração decidir da minha disponibilidade. Tem sido muito bom. Mas de tudo o que a minha porta já me proporcionou, há momentos que são tão especiais que me enchem de luz: quando qualquer coisa me diz que tenho de franquear a porta e, do outro lado, está alguém para RE-conhecer.

* já não me lembrava o quanto gosto de ver nascer o dia

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

 

SITEMETER

Descobri que tenho um leitor do meu blog aqui onde trabalho. Quando a Ana instalou (nem sei se é assim que se diz) o sitemeter achei que nunca teria paciência nem motivação para me pôr a vasculhar a origem e muito menos a frequência das visitas aqui a casa. Já me enganei, pelo menos, duas vezes.

Houve uma altura em que me diverti a apreciar o cortejo de visitas que um certo poste, mal recebido por ter sido mal entendido (ou o contrário, tanto faz) provocou. Um grupo específico de pessoas, algumas de quem até gosto muito, outras que me são absolutamente indiferentes, desataram a visitar-me e dar-me feed-backs do que cá foram encontrando. As mais afoitas, fizeram-no espontaneamente. A outras, sentindo-me eu presenteada com a deferência das suas vindas, instei-as ao comentário.

Já me tinha passado pela cabeça que não seria de todo impossível que alguém desse comigo por aqui. Sei que trabalham cá outros "blogueres" e sabemos bem como as coisas se processam e que, num instantinho, se dá a volta a este mundo. Nunca me preocupou esse facto nem hesitei em escrever fosse o que fosse por receio de ser identificada. É verdade que muito poucos sabem os pormenores da minha vida que entendo guardar. Hoje, posso dizer com toda a convicção que é por uma questão de pudor, eu que pareço tão desbragada a falar de mim, tão extrovertida, tão desinibida. Mas (como já escrevi algures) sou, na verdade, precisamente o contrário. Desempenho é muito bem o papel que acredito ter, no argumento da vida que vivo com os outros nem por isso muito significantes. Não é por mal. Sou autêntica nisto que faço.

No entanto, não tenho qualquer dificuldade em me assumir. Como sou. Uma mulher absolutamente feliz. Que, por acaso, vive o pormenor de se deitar todos os dias com outra mulher. Que é a pessoa exacta com que sonhei para ser o meu amor.

Sei o guilty pleasure que é ler um blogue de alguém que conhecemos e que não faz a menor ideia de ser lido por nós. Também me acontece. Todos os dias. Não sei bem o que espero, se alguma revelação bombástica, se um desvelar impossível noutras circunstâncias. Por isso, percebo perfeitamente que outros se sintam também assim. Não gostaria é que houvesse alguém que pudesse ter vontade de falar comigo acerca de algumas coisas e não o fizesse, apenas por não saber como ultrapassar o momento incómodo de dizer que me conhece mais do que eu penso.

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

 

COMIDA LIGHT

Almoço quase sempre na cozinha/copa/refeitório do local onde trabalho. Para além da óbvia preguiça que tenho de ir à rua à hora do almoço, do enjoo que já tenho a tudo o que se come nos restaurantes e tascas à volta, há a imperiosa necessidade de fazer dieta rígida e, consequentemente, só me atrever a comer os grelhadinhos e as saladas (de insipidez equivalente) que trago de casa e a que dou um arzinho de coisa apetitosa, requentando os primeiros na cloche - que o senhor director nos comprou pessoalmente na makro - e enchendo de vinagre balsâmico as seguintes, sob os olhares de atraída repulsa de algumas colegas.

Mas a verdadeira razão que me prende àquele espaço é outra. Não podem supor o que ali se passa. Só vivido. As conversas, as interacções, as ementas, os arrotos, o sonoro retirar de restos de comida de entre os dentes, os dramas familiares, as injustiças laborais, o aquecimento global, o encanecer dos pelos púbicos, a receita para ter sempre os pés hidratados, os ratos mortos debaixo do lava-loiça e os que ainda se mantêm moribundos, presos às modernas ratoeiras cheias de nhanha que cola. De tudo se fala, a maior parte das vezes com tamanha paixão e empolamento que fico tonta de processar tantos estímulos. Ah! Com a televisão sempre com o som no volume necessário para se sobrepor a todo este falatório. Que não se pode dispensar informação preciosa, alimento para mais conversas sobre a desgraça que grassa por esse mundo fora.

Sexta-feira passada foi um mimo. Tudo começou pelos comentários tecidos a propósito do primeiro livro português cujo protagonista é um menino que foi criado por duas pessoas do mesmo sexo. "Isso é um horror! Não posso concordar!" Dizia enfaticamente um colega. Em pensamento, esfreguei as mãos! 'Tás lixado. Pensei. Nem imaginas o baile que vais levar. E assim foi. É maravilhoso vê-los rabiar, sem perceberem muito bem donde me vem tanta convicção, esta vontade de defender algo com que não tenho obviamente nada a ver... É bem feito para não serem preconceituosos. São tristes na sua visão limitada do mundo, formatada e cheia de clichés. Ai o que eu vou gozar. Um dia. Por enquanto, vou-me só divertindo.

Sentindo-se já um pouco tolo, argumentou que, vá lá, uma criança criada por duas mulheres ainda... mas por dois homens não! Até porque os homens precisam de uma mulher. Que seja sua mãe. É por isso que eles casam. Acabam sempre por ser um pouco filhos das suas mulheres.

A sério! Tenho de reconhecer. Com esta ele conseguiu atingir-me o flanco e quase me derrubou. Fiquei parva de todo. Boquiaberta, de olhos esbugalhados, a perguntar-me incessantemente se estaria a alucinar. Andas a dormir pouco, mariazinha, e depois dás nisto. Mas ele repetiu, clarificando melhor a ideia.

Refeita do embate, para aí umas 12 horas depois, perguntei-me que raio de mulheres escolhem, vivem, criam homens assim. O orgão sexual de um filho (do sexo masculino) chama-se pilinha. Que mulher se deita com uma pilinha? Quem quer ser fodida por uma pilinha? Eu, no meu lado hetero, só consigo imaginar-me ser possuída por um mangalho, um pau, só penso em levar com ele, com um que me encha as medidas... Não há qualquer hipótese de se erotizar um filho. A não ser que se seja doente. O que me leva a pensar que há muito mais patologia do que a que está identificada. E da perigosa. Que é aquela que é desconhecida e ignorada por todos. Seus detentores incluídos.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

 

INDEFECTÍVEL

Detesto que me apontem erros. Quaisquer. Cresce-me da planta dos pés um formigueiro, uma onda de nervoso e raiva que me possui, pinta tudo dum encarnado violento e arranca-me da garganta sons articulados pelo monstro de que fico tomada. Vagamente, de muito longe, começo a ouvir o que digo e apercebo-me de que argumento - como dizem que só eu sei - deito mão seja ao que for, para relevar o erro que, as mais das vezes, cometi. Mesmo. Poucas coisas me custam tanto quanto a admissão de um faux-pas (soa tão bem que nem parece o que é...).

Lamentavelmente, tenho um prazer desmedido em descobrir erros nos outros. E quanto mais admiro alguém, melhor me sabe apanhá-lo em falta. É triste mas é verdade. Deve ser porque, de certa maneira, aqueles que admiro são modelos a seguir. E, se falham, tornam-se modelos mais tangíveis, mais reais, patamares mais acessíveis. Mais humanos, portanto. Mais próximos de mim. Logo, mais queridos. Dando assim esta volta, quase consigo escamotear a verdade feia de gostar de apanhar os outros em falso.

Apesar de tudo, vários anos de terapia, da dos psis e a da porradinha da vida que se leva quando se está vivo e se vive (que parecendo o mesmo, não é) têm-me feito mudar. O bicho que se apodera de mim já não é totalmente indomado. Tenho uma espécie de rede pronta a capturá-lo mal se solta. Uma vez controlado, olho-lhe bem nos olhos, lá fundo e tento perceber o momento que lhe deu vida, a razão da sua indómita existência. Quase sempre isto é suficiente para o ver mirrar, secar, transformar-se num dócil animal de companhia. Ou um peluche. A que posso agarrar-me para me sentir mais segura. Porque, em todo o processo, pelo menos aprendi que se erro, é porque faço. E se me corrigem, dão-me a possibilidade de aprender. É sempre a ganhar.

Ah! Vem tudo isto a propósito de correcções feitas lá na casa dela. E de verbos com nomes feios...

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

 

SEGREDOS NA ALCOVA

No sábado, dizia-me a Nicas Picas, fazendo a costumada brincadeira de quem bebe pelo mesmo copo mas referindo-se à garfada que deu no prato de bacalhau, já desdenhado pela Ana e meio comido por mim: "Vou ficar a saber os teus segredos..." e arregalou os olhos, fingindo espanto e escandalizado horror, enquanto metia o garfo na boca. Respondi-lhe que não tinha segredos para ela. Respondi sem pensar e, por isso mesmo, de forma autêntica, creio. Retorquiu-me não ser isso uma coisa boa. Ponderei num instante e confirmei: "Não me lembro de nada que possa ser considerado um segredo". E digo-te agora, que já pensei mais do que um instante sobre o assunto, que não acho nada mal que assim seja.

O amor romântico não é nem pode ser incondicional. Posso (ou não) ter segredos que não partilho com a pessoa com quem quero viver para o resto da minha vida. E por essa exacta razão. Devo defender-me, preservar e manter um reduto a que possa regressar em e a qualquer momento. Um espaço em que me permito ser sem constrangimentos de nenhuma espécie, ainda que temporariamente e mesmo que com o intuito de crescer no sentido de promover uma relação cada vez mais plena e satisfatória com quem me complementa.

Mas o amor dos amigos não é assim. É um amor de escolha, livre e descomprometido. Não tenho um projecto de vida com a minha melhor amiga, embora não seja sequer capaz de me imaginar um futuro em que ela não esteja presente. Mas não sinto na nossa relação nenhuma necessidade do tal lugar só meu em que teço, em segredo, os sortilégios da minha intimidade. Não preciso de me ausentar de nós, de guardar em mim segredos, de me acautelar. Não significa que partilhe tudo. Uma ou outra coisa há-de ficar perdida neste labirinto que às vezes sou. Mas é porque sim. Não porque tenha de ser.

Terça-feira, Julho 10, 2007

 

ÁGUA MINERAL

A minha muito querida Nicas Picas (amiga-irmã-companheira-sócia-comadre)deu-me de presente de anos uma consulta astrológica. Adorei a ideia. O senhor não defraudou em nada as expectativas que levei, sendo ainda mais fascinante do que esperava. Pelo humor, a graça, a desenvoltura com que me abordou o destino. Num instante, apanhou-me as manhas e, talvez por isso, conseguiu pôr em acção quase todo o meu espectro de emoções. Gargalhei histericamente e choraminguei em consonância. Bom... na verdade, o que aconteceu foi que me diverti e emocionei só que é mais fácil falar dos sentires quando os parodiamos um pouco.

Disse-me uma data de coisas: muitas do passado e algumas do futuro. Ao presente, referiu-se pouco, provavelmente por acreditar (e empenhar-se em fazer-me acreditar) que mudanças se me agigantam à porta. Boas. Muito boas. Óptimas, assegura-me. Assim eu esteja disposta a aceitá-las, seja ambiciosa e perca a tacanhez de espírito que me assola em alturas que gostaria de fazer de conta que não existem.

Falou-me dos elementos. Do que me domina e como me influencia e dos outros. Gostei do que me disse acerca da Água. Explicou-me que é o elemento que se refere aos afectos. A minha "água" corre nas profundezas de grutas interiores. Entre rochas (de granito transmontano, certamente) límpidos e finos fios, carreirinhos esforçados serpenteiam. Posso ouvir o seu gorgolejar sussurrante. Se estiver com muita atenção. É muito difícil aceder a esta água. Só alguns, seja por mérito, seja por sorte, conseguem lá chegar. Afortunadamente (talvez, para eles mas decerto, para mim), uma vez recebidos no meu lago privado interior, jamais são escorraçados. Façam lá o que me fizerem.

Fiquei a pensar que está explicado porque ainda sonho tanto contigo.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

 

EXISTIR

A propósito deste poste, que deu alguma polémica aqui, lembrei-me de uma frase de Viktor Frankl*: "Tudo pode ser retirado de um homem, menos a última das suas liberdades - escolher de que maneira vai agir diante das circunstâncias do destino".

* psiquiatra austríaco, judeu, sobrevivente de Auschwitz
wikipédia

Quinta-feira, Maio 31, 2007

 

O (EU) QUE ME PEDE A PRIMA

Eu quero... viver
Eu tenho... preguiça
Eu acho... sempre muito
Eu odeio... sentir frio
Eu sinto... e sinto e sinto e sinto
Eu escuto... com um terceiro ouvido
Eu cheiro... tudo!
Eu imploro... se estiver muito aflita
Eu arrependo-me... mas custa-me
Eu amo... a vida
Eu sinto dor... na alma, às vezes
Eu sinto falta... dos que me morrem
Eu importo-me... com as pessoas
Eu sempre... quis esta vida
Eu não fico feliz... quando me dói a consciência
Eu acredito... no Amor
Eu danço... quando me apetece
Eu canto... todos os dias
Eu choro... e não consigo parar
Eu falho... e desisto
Eu luto... para ser melhor
Eu escrevo... quando já não cabe em mim
Eu ganho... de todas as maneiras
Eu perco... quando me perco
Eu nunca digo... desculpa
Eu confundo-me... com a estupidez
Eu estou... a viver o melhor
Eu sou... competente
Eu fico feliz... quando consigo (seja o que for)
Eu tenho esperança... nas pessoas
Eu preciso... de ser espontânea
Eu deveria... estudar mais

Segunda-feira, Maio 14, 2007

 

ENQUANTO ME LEMBRAR

Eu já sabia. A memória é um bem precioso. Exagerada como sou, com esta minha tendência para me deixar incendiar de paixões, apetece-me dizer que é o bem mais precioso. É o que nos preserva, o que nos mantém, o que nos permite a transcendência, a vitória sobre a corruptibilidade da carne. Li algures que ninguém está morto enquanto houver dele memória. Fez-me sentido mas faltava-me sentir. Da maneira que se sente quando se vive.

Tive essa sorte. Há dias, o meu sobrinho mais novo, que me enche o coração de ternura desde que o vi nascer, que (por isso) me tolda o discernimento ao ponto de lhe permitir a satisfação de todos os caprichos, deu-me a enorme graça de viver um daqueles momentos que nos transformam. Nunca conheceu a avó E., minha mãe. Nasceu apenas 7 anos após a sua morte, faz agora 11 anos. Já o tinha ouvido a falar dela, reconhecendo-a nas fotografias, curioso com a forma como morreu. Comportamento normal, para uma criança muito viva e interessada por tudo. Do que eu não estava à espera era da ligação que ele soube estabelecer com ela. Que só pode ter nascido do quanto nos lembramos de como foi a nossa mãe, a sogra da minha cunhada, a avó dosmeus sobrinhos. E, de cada vez que isso acontece, presentificamo-la. No espaço e no tempo em que estamos vivos. E ela fica também. Só assim se explica que, uma destas noites, ainda sentados todos à mesa do jantar, o J. tenha resolvido "tifonar" à avó E. para lhe dar conta das novidades familiares, das viagens do pai, do nascimento do novo bebé. E que tenhamos todos acabado ao telefone, sorriso nos lábios, vozes um pouco (mas muito pouco) trémulas, a falarmos para o céu.

Segunda-feira, Abril 30, 2007

 

ALÍVIO

Há que tempos que não escrevo!... E, mesmo agora, já apaguei sei lá quantas frases começadas. Nunca faço isso. Escrevo sempre de enxurrada, sem censura nenhuma, sem reler. No fim, copio para o word porque morro de vergonha de dar erros e, corrigido o texto, "pranto-o" aqui. Estas voltinhas são bem demonstrativas de quanto sou coca-bichinhos... mas porque é que não escrevo no word e só copio uma vez??? Sou tão obsessiva, graças a Deus!...

Estou plena de coisas para dizer. Devo ter deixado passar tempo de mais e agora está tudo compactado cá dentro, uma amálgama de sentires todos misturados, já sem características próprias. E como falar dessa massa de cor parda já sem forma nem conteúdo distinto?

Faço uma pausa. Hoje é um bom dia para isso. Fecho os olhos e e cavo um túnel para dentro. Parece que me desfolho. Fica tudo do avesso. Olho para os meus braços e vejo músculos, veias, sangue, carne. Tudo de fora. E eu ligeirinha. A correr por dentro de mim, a escorregar na pele virada para dentro. Suave, quente e lisa.

Chama-me o médico "morta-viva". Que foi por um triz. Que disparate! Não sinto nada disso. Desprezo o dramatismo que imprimem ao que me dizem. Sabem lá que estive a anos-luz de me acabar. Confiro: o amor imortaliza-nos.

E do perdão? Em oposição ao esquecimento. Quem perdoa não esquece. E quem esquece não releva. Não quero esquecer. Nunca quis. Nunca o fiz. Lembro-me de tudo. Quero que assim seja. Preciso da memória para perdoar, para me reconciliar. Com quem me magoa, ofende, estraga. E comigo, sobretudo. Apaziguar-me com as recordações dolorosas, integrá-las em mim, tijolos do meu Ser. Produzir a mais sublime alquimia. A transformação do prosaico em divino.

Pronto! Era só isto, afinal. Parece pouco mas está cá tanto. Sinto um entorpecimento. Tenho as vísceras expostas há tempo demais. É bom que reponha a ordem. Vou já abrir os olhos e voltar a ter um aspecto normal.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

 

FACILITADOR DE (ALGUMAS) VIDAS

Como aceder a este blog sem ter que pesquisar "leões da rodézia" no google:

escrever http://www.amariadaianaabloggar.blogspot.com/ na barra de endereço.

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

 

SIM. PORQUE NÃO?

Ando às voltas com isto há já algum tempo. Mas irrita-me que toda a gente fale do mesmo. Eu sei que é tema do momento, que faz falta discuti-lo. Mas não consigo deixar de sentir um certo enfado, uma certa necessidade impreterível de ser original e não falar do mesmo que os outros. Até aqui é fácil. O pior é quando dou por mim a pensar repetida e insistentemente naquilo de que os outros permanentemente falam... E enfio a minha arrogância-snob-mania-de-ser-original num saco do lixo preto com atilhos, amarfanho-o bem e atiro-o para o canto mais esconso da minha atafulhada arrecadação. Literal e metaforicamente falando, entendamo-nos. Afinfo-lhe umas bombadas de Dettol - para acabar de vez com o bicho e qualquer remota possibilidade de reanimação - e... eis-me aqui.

Já votei não. Convicta das minhas opções, defendi acaloradamente o meu voto. Senti pena e desdém e também um bocadinho de sobranceria por quem, coitado, tinha de escolher sim por ser tão básico e primário que não ascendia ao não. Isto foi há quantos anos? Não faço ideia. Para mim, o tempo é o que faço com ele e, da mesma maneira que posso saber exactamente quantos dias passaram desde um determinado acontecimento importante, não sei (e não ligo nenhuma pelos vistos, porque é assunto recorrente no momento) quando foi o anterior referendo. Também, só me serviria para fazer uma estimativa do tempo que levei a SER mais um bocadinho. Na verdade, não mudei. Não me tornei menos arrogante, limitada e um pouco imbecil. Continuo a sentir que a maioria das gravidezes indesejadas decorrem de comportamentos irresponsáveis, ainda que saiba que não é sempre assim. Mas, pelo menos comigo, o que predomina são os afectos e não me adianta de nada saber coisas. E, neste particular, há uma rede intrincada de emoções que me levam a bloquear a capacidade de evoluir no meu sentir. Votaria não, portanto, de novo. No entanto, alguma coisa está diferente em mim. Que só interfere com esta questão específica porque é transversal a tudo o que sou. Tornei-me infinitamente mais tolerante. Quem sou eu, afinal, para julgar quem quer que seja? Ainda que, na minha moral, considere os outros irresponsáveis, inconscientes, ignóbeis? E depois? É a vida deles. Que tenho eu a ver com isso? Como posso, com o meu voto, cercear a possibilidade de cada um escolher o seu caminho ainda que convicta de que não seria o meu? Como posso, sequer, ter a certeza de que não seria? Nada me garante que o meu não, é melhor que o sim dos outros. Até porque decorre apenas de uma atitude moral distorcida, assente em princípios dúbios do que é certo e errado. Nem sequer me impressiona a questão da vida que se mata, do coraçãozinho que já bate... O meu não é rígido, intransigente, cobarde. E eu não quero ser assim.

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

 

A PINGAR MEL

Hei-de escrever um poste. Um dia destes. Não é quando tiver tempo. Até porque me irrita a forma como se atribui ao tempo a responsabilidade da nossa incúria. Há dias ouvi alguém dizer que nos esquecemos de que o tempo é nosso e que, por isso mesmo, fazemos dele - e com ele - o que queremos, o que escolhemos fazer. Logo, se nos falta, é porque o usamos em coisas que preferimos. Mesmo que não sejam aquelas de que gostamos. Nisso somos sempre um pouco estúpidos, claro.

Mas hoje de manhã ouvi esta música. E senti-a tanto que quero oferecer-ta aqui, para outros verem. Deixo-te a letra. Não sei pôr músicas no blogue. E também não quero que me ensines. Gosto desta casa assim, sabes bem.

"Nine Million Bicycles"

There are nine million bicycles in Beijing
That's a fact,
It's a thing we can't deny
Like the fact that I will love you till I die.
We are twelve billion light years from the edge,
That's a guess,
No-one can ever say it's true
But I know that I will always be with you.
I'm warmed by the fire of your love everyday
So don't call me a liar,
Just believe everything that I say
There are six BILLION people in the world
More or less and it makes me feel quite small
But you're the one I love the most of all
We're high on the wire
With the world in our sight
And I'll never tire,
Of the love that you give me every night
There are nine million bicycles in Beijing
That's a Fact,
It's a thing we can't deny
Like the fact that I will love you till I die
And there are nine million bicycles in Beijing
And you know that I will love you till I die!

Katie Melua

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

 

INEDAMÚDE

Sempre ouvi a minha mãe dizer que a vida dela havia começado quando completou 40 anos. Sendo que me chamava "a estrela da minha vida", depreendi que tivesse sido o meu nascimento, duma forma simbólica (ou até literal), a provocar-lhe a sensação de início de vida. Na verdade, o que eu achava na altura era o que me parecia mais simpático, o que sintonizava com a incondicionalidade do lugar ocupado por mim na vida daquela mãe-gigante. Mas isso era só porque eu estava pouco atenta. Porque, agora, quando me lembro do que ela, de facto, dizia, tenho de reconhecer que só uma ínfima parte se referia à "estrelinha". Era da MULHER que falava. Não da mãe, não da esposa, não da amiga nem da filha nem da caridosa vicentina e activista católica. Era mesmo da fêmea, em toda a sua pujança. Se calhar foi por isso que eu nasci. Daí a ligação. Permitiu-se engravidar e parir-me em todo o esplendor dos seus 40 anos cheios de tesão. E ganhou uma dimensão muito superior à comportada pelo seu corpo físico. Quem se lembra dos gestos daquelas mãos enormes, do jeito voluntarioso que dava à cabeça enquanto falava, dos passos decididos com que andava e que tão bem combinava com o doce requebrar genético, sabe do que falo. Não sei como é que ela era antes dos 40 anos. Para mim, sempre tão sôfrega, tão ciosa, possessiva, obcecada por ela, nem existia. Nasceu no mesmo dia que eu. Talvez um pouco antes para me preparar a chegada. Para se preparar para a chegada. Dela. Da fabulosa mulher de 40 anos.

Estou quase lá. Pela primeira vez na vida desejo que o tempo passe, ainda que sempre o faça, indiferente ao nosso desejo. Inexoravelmente. E nunca me senti tão plena, tão segura de mim. Piso o chão com um gosto que não se explica. Sei que emito luz. Agora sim, sou uma estrela. A minha.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

 

PESSOAS

Dei por mim a fazer um balanço. Ao meio jeito, sem grandes preparativos nem delongas. Assim, de repente, com conclusões à flor da pele, expiradas num segundo. É como eu sou. Para alguns, pouco reflectida. Para mim, muito "sentida", muito no peito, longe da cabeça. O cérebro serve-me apenas para processar a informação, torná-la inteligível, quando me apetece.

Descobri que a pessoa feliz que sou, deve tudo aos outros. Apercebi-me de que me podia faltar tudo, desde que pudesse manter os laços que me unem a alguns. Sou - orgulhosamente - muito amada. Sobretudo por aqueles que amo, ainda que a reciprocidade não seja razão. Tenho, pelo menos, um milhão de memórias. Sempre com pessoas. É sempre assim? Há memória sem relação? Eu não tenho.

Sou muito rica. Afortunada. Todos os dias no meu olhar acendem-se estrelas. E o ar que respiro tem o odor das flores silvestres que me ofereces em cada manhã.

Tenho pessoas. Não no sentido de as possuir, que isso é meio caminho para lhes manietar as vontades. Refiro-me ao espaço que ocupam cá dentro que me faz ser maior, toda cheia, preenchida, realizada. Aconteça o que acontecer, dê a vida as voltas que der, nunca nada nem ninguém poderá tirar-me este tudo. E, nunca, é das palavras mais fortes que conheço.

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