quinta-feira, fevereiro 03, 2011

 

NOVO INQUILINO

Hoje aprendi que o amor não se guarda no coração. O peito é lugar demasiado perto da garganta, demasiado perto da boca. O que faz com que, ao pequeno descuido, se nos soltem pedaços, palavras, soluços, gemidos, queixumes, arroubos espampanantes de paixão e declarações de amor ardente. Que se perdem na intensidade da projecção com que são emitidos. Demasiada potência, cavalos a mais, num veículo que serve um percurso tão curto. Por outro lado, se voraz, também se alimenta com pouco e rápido, como um hipoglicémico que arriba por cinco minutos com um pacote de açúcar, para cair redondo de seguida.

O verdadeiro amor guarda-se mais abaixo. Algures entre o estômago e o baixo-ventre, parece que no plexo solar, que disso não percebo nada, embora devesse. Faz-me sentido. Afigura-se-me um lugar mais seguro. Nem entra nem sai nada inadvertidamente. Não está vulnerável aos caprichos do clima. Mantém uma temperatura mais ou menos constante. Conforta. Como uma sopa saborosa e quente num dia frio de inverno. E - disseram-me e eu acredito - este é um amor mais rico, mais completo. Se calhar por estar mais fundo em nós, é amor pelo outro mas também amor pelo próprio. E, por isso, nunca nos deixa ficar mal, nunca nos falta, não nos abandona. Não se nos escapa boca fora, ao primeiro bocejo de tédio ou ao primeiro arranco de dor. Também é mais perene. Não se volatiza. É de confiança, no fundo.

O problema surge quando o espaço para esse amor está ocupado e ele é obrigado a morar no andar de cima, à face da rua ou, nos casos mais graves, nas sombrias águas-furtadas da caixa craniana. Nessas situações impõe-se a emissão da ordem de despejo do inquilino ilegítimo, sem recurso à usucapião, sejam quantos forem os anos de ocupação. Mas é um processo que tem de ser bem conduzido. Primeiro, há que conhecer muito bem o indesejável sujeito. Torná-lo objecto de desvelado estudo. Usar de todas as artimanhas para lhe conquistar a confiança. Saber dele o mais possível. Dominar-lhe a razão de existir. Levá-lo, com recurso ao que for necessário, à nudez total, à palma da nossa mão. E, nesse momento, sem hesitações, desferir o golpe de misericórdia, doa o que doer. Doa a quem doer. Doa como doer.


Hoje, precisei de me irritar muito contigo, mãe. Já chega de me apareceres em sonhos sempre com um ar descontente, tu que tinhas um dos sorrisos mais bonitos que já vi. Aquele espaço que ocupaste já não é teu. Preciso dele, mãe. Estou a pôr-te fora, mais às tuas expectativas em relação a mim, mais à minha falta de segurança e ao meu estado de alerta permanente, como se pudesse assegurar-te de que nunca seríamos apanhadas de surpresa.

Comments:
Profundo... Gosto.
 
E quando se tem um nó no estômago deve-se concluir que está guardado no local correcto!? :-) T.
 
obrigada, Miúda Má :)
 
Se calhar, T. (do meu coração). Deixaste-me a pensar. Depois digo-te se me ocorrer alguma coisa.
 
E é ssim com essa nudez total, que conseguimos tirar fora aqueles que por vezes mesmo tendo acabado o seu caminho terreno, nos continuam a tentar abafar o nosso eu e a não deixar sermos nós mesmas.

Gostei muito do teu post, ajudaste-me a sentir-me menos culpada quando me irrito e "xingo" a minha mãe por ela me ter deixado tão pequenina...quando "xingo" a minha segunda mãe quando me perturba também ela os meus sonhos...
Obrigada por ele.
Beijos de carinho
 
Lindissima abordagem... e, para mim, tudo isto faz sentido... guardarei as palavras em mim, farei se nao te importares, as tuas palavras minhas.

Um beijo grande
CA
 
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