quarta-feira, setembro 07, 2011

 

A FÉ. SEMPRE A FÉ.

Cresci na igreja. Literalmente. A minha mãe, vicentina caridosa, dedicado membro da Acção Católica, senhora da alta burguesia da terra, aos sábados, acompanhada da sua dilecta amiga, senhora de uma burguesia ainda mais alta, limpava o pó aos altares da Sé Catedral e compunha arranjos de flores que fariam a comunidade soltar heréticos murmúrios de admiração durante as eucaristias de domingo, face à clara demonstração de humilde entrega cristã.

Eu acompanhava-as sempre. E tinha um altar próprio, só meu, de que cuidava. À entrada da igreja (edifício moderníssimo, imponente, construído no início dos anos 70, controverso e, para sempre, inacabado), à esquerda, a pia baptismal era encimada por um Cristo na cruz, figura dum realismo que dissonava de forma chocante com o minimalismo estilizado do edifício. Talvez por me sentir atraída por esse contraste grosseiro, deleitava-me a limpar, com um paninho e uma escova de dentes usada, cada chaga do corpo daquele desgraçado. Enquanto o fazia, acho que rezava. Mas já nem sei bem. Talvez o fizesse da forma mais pura que pode haver, porque imbuída de uma verdadeira compaixão. Ao passar os dedos por cada ferida aberta, sentia a dor vivida e condoía-me. Havia qualquer coisa de masoquista no acto (“todo o sadismo é masoquismo”, diz-me a mestre), um prazer associado à dor. Uma conexão que o meu cérebro instintiva e automaticamente ainda hoje faz entre sofrimento e gozo… (“sofrer para bela ser”; “no pain, no gain”).

Fui à missa mais do que uma vez por semana durante anos. Conhecia a liturgia quase de cor. Era dos leitores mais requisitados por ter uma voz bonita, clara e ser tão novinha que ficava bem no púlpito. Uma promessa… Ouvi histórias dos “chamados”. Aqueles que o Pai escolhia para integrarem o seu rebanho, para serem as suas ovelhas de ouro. Pedi-lhe sinais para o caminho. E ele deu-mos. Tornando-me tão devassa e voraz pela vida que me mostrou, inequivocamente, a impossibilidade de me confinar a um convento ou mesmo a uma leve entrega leiga à “causa”.

Aos poucos, perdi a necessidade de “lá” ir tantas vezes. Hoje, quando vou à missa, é de visita a casa de um amigo a cujo convite respondo. E como o que ele me serve. E só não bebo porque não há maneira dos homens que mandam na igreja, perceberem que o que faz sentido é o pão com o vinho (comungar das duas espécies, como me ensinou a mãe).

E sei as senhas e as contra-senhas todas. Respondo ao papaguear próprio, ao argumento decorado. Sei as falas e entro nos tempos certos. Algumas saem-me da boca. Outras, do coração. Há, no entanto, uma frase que resume e define o que é, para mim, a fé. É dita aquando do convite para a mesa e funciona como uma afirmação de que acredito, de que, de verdade, existe algo que me toca incondicionalmente.

Aprendi agora – que tenho ido tão poucas vezes às suas festas – que posso repeti-la sempre que me apetecer, como se faz quando se envia um sms a um amigo só para se dizer o quanto se gosta dele ou falarmos das saudades que sentimos. E, quando o faço, sinto, em toda a plenitude, o efeito destas palavras em mim: “Senhor, eu não sou digna de que entreis em minha morada. Mas dizei uma palavra e eu serei salva”.


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