domingo, maio 26, 2013

 

DE QUEM É O AMOR

Gosto de gatos. Distintamente dos cães, cuja inteligência é apenas operativa e para pouco mais serve do que fazê-los obedecer a "deita", "dá a pata" e "apanha a bola", os gatos têm aquela metaconsciência que anda a par com a sabedoria.

A Cookie foi minha durante 13 anos. Era-me verdadeiramente devotada. Assim que estacionava o carro, quando ainda não era nova-rica e não tinha garagem, mesmo que demorasse 10 minutos a entrar em casa, a Cookie saltava de onde estivesse a dormir (meditar?) e corria a sentar-se à porta para me receber. Não voltava a largar-me senão à despedida, no mesmo local, habitualmente na manhã seguinte.

Por mim, suportava a presença do Podgy, o cãozinho que, de quando em vez, passava férias lá em casa. Estudei para os exames do 12º ano deitada na cama com os dois, um de cada lado dos meus pés, ignorando-se mútua e enfaticamente, com a mesma intensidade com que me olhavam.

Durante os nossos 13 anos de convivência, devo ter-lhe cortado as unhas 2 ou 3 vezes, dado banho outras tantas, mudado o caixote e enchido o prato talvez numa dezena de ocasiões.

A Maria Emília, minha mãe, apesar da ligeira oposição inicial ao elemento novo, assegurou sempre todos os cuidados à bicha, com o desvelo que imprima a tudo o que fazia. Cozinhava-lhe postinhas de pescada a que retirava as espinhas para lhe dar de miminho, aparava-lhe cuidadosamente as unhas para não atingir o sabugo, dava-lhe banho (embora fosse absolutamente desnecessário) só para retirar o pêlo velho, não fosse a gatinha ingeri-lo.

A Cookie nunca dormiu com a minha mãe. Não se sentava ao colo dela. Tratava-a, ostensivamente, como se nem existisse. Essa displicência evidenciava o teor meramente funcional da relação. Em inversa proporção ao amor cego que me dedicava. Em voz vexada, a Maria Emília repetia: "Eu é que trato dela mas é da outra que ela gosta!".

Lembrei-me disto em reflexão sobre o Amor. Se a Cookie amasse a tratadora seria legítimo, facilmente perceptível a razão. Mas o Amor é impermeável a qualquer lógica. A hermenêutica do Amor é, para o limite humano, terreno invicto.

O Amor que tem uma causa, que deriva de algo é, por inerência, um amor limitado. A esta origem. O Amor "do nada", que existe por si só, que não decorre de uma relação de cuidado, que nasce inclusivamente na sua ausência, é o Amor. Que se alimenta de subtis e imperceptíveis trocas, apenas inteligíveis para os actores do processo. Como a imensa sensação de conforto de que (estou certa) éramos ambas acometidas quando, a cada noite, a minha gata se encaixava na dobra das minhas pernas.

Levei estes anos todos. Mas finalmente percebi que não tenho de fazer nada. Que o Amor surge de geração espontânea. E aceitar isso é saborear a Paz.

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