sexta-feira, junho 14, 2013

 

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA

O meu maior defeito é a rigidez. Custou-me a entendê-lo. A aceitar-me assim. Passo primeiro para a mudança. Via como contraponto e argumento a desfavor, a imensa tolerância que imprimo à forma como vivo. A minha vida e a dos outros. Manipuladora como poucos, entendia-me flexível, maleável, capaz de serpentear à volta de fins que me movam. Que engano!... Até o meu corpo o mostra. Toda eu sou requebros. Mexo os quadris como se tivessem vontade própria e não pertencessem a uma estrutura. Mexo os ombros como se o resto do corpo não fosse enervado. Dir-se-ía que sou elástica, capaz de controlar cada parte do todo. E assim é, com efeito. Ao primeiro acorde de um ritmo especifico que me acorda os genes. Rigidamente. Dêem-me uma melodia de outras coordenadas e não passo do embalo mediano de quem tem o gosto mas a quem falta a arte.

Os que comigo privam dir-me-ão adaptável. Finjo. Como o poeta. Só me ajusto por fora. Cá dentro, uma fraga de granito transmontano que não se altera um milímetro. Por erosão, seriam precisos séculos, eras. Sou afável, simpática, atenta, disponível, generosa. O sorriso é franco, aberto. As mãos, expressivas e ágeis. Os braços, estendidos sempre prontos para a acção. Empedernida nesse estar! Porque me custa tanto experimentar outro? Basta a ideia e fico ofegante, com as mãos húmidas e trémulas. De onde me vem este medo de me desintegrar? Eu que tanto gosto de aventuras, do novo, de ir aos limites, porque não brinco a este faz-de-conta? É como se houvesse outra de mim. Verifico que é "ela" quem me apavora. Receio perder o sorriso, a desenvoltura que cativa, a entrega disponível. E se eu não gostar do "mim" que aparecer? E se, uma vez dinamitada a rocha, ficar soterrada em escombros? Ferida em lascas de pedra? Não me interessam os outros. "Finjo tão completamente" que ninguém daria por nada. Já não dão. Só eu conheço a resistência do meu menir interno.

Sempre temi a idade. A degradação física deprime-me, angustia-me. Percebo agora que é tudo parte do mesmo. É como se passasse a ter um mau serviço de caracterização. Amarela-se o sorriso, engelham-se as mãos, artriterizam-se os movimentos, embaça-se o olhar.

Escasseia-se-me o tempo. Se - ainda - quero ser feliz, está na altura de ganhar coragem. De, em movimento inverso ao do poeta, desfazer o castelo e deixar as pedras no caminho.

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