quinta-feira, dezembro 16, 2010

 

O PACTO

Vivi, desde sempre, num pacto com a morte. Ofereci-me à foice, anulando toda e qualquer capacidade para discernir a minha existência. Inchei até ocupar um espaço físico indecente, sem me aperceber que era uma tentativa de me tornar real. Nunca me vi. Por isso os outros repetiam até à sua própria exasperação o quanto eu sou uma mulher maravilhosa, fascinante, bonita, auto-suficiente, prendada até em lavores e domesticidades, capaz de deitar mãos a qualquer tipo de tarefa e executá-la na perfeição. Profissional de sucesso, admirada, respeitada. Capaz de deixar partidos corações de homens e mulheres deslumbrados com a forma como me mexo, com a sensualidade que me brota dos poros. Adorada pela família. Imprescindível para os amigos. Entusiasta e entusiasmante. Apaixonada. Inteligente. Perspicaz. Intuitiva.

E tudo isso escorregava no tecido viscoso da mortalha que enverguei. Lamento mas nunca me serviu de nada tudo o quanto me diziam. Desistam de estranhar que eu não veja, que eu não acredite. Parem de mo repetir. É quase ofensivo. Já não controlo o meu desdém por quem precisa de ouvir dos outros a confirmação de ser quem devia saber que é. São elegias. Não servem de nada aos mortos. Só acalmam a consciência dos vivos e servem, na maioria das vezes, a quem as faz e a quem as recebe, fins muito concretos mas muito pouco elevados.

Hoje alguma coisa mudou em mim. Não há nada que nos leve mais rapida e profundamente ao auto-confronto que o sofrimento. E, apesar de todas as perdas que já vivi, precisamente por estar, também eu, perdida e morta, nunca sofri tanto como nos últimos meses. E foi essa a via, como escrevi há dias, que me conduziu ao corpo. E, confrontada com ele, apercebi-me da vida que pulsa em mim.

Hoje, despi a mortalha. Ainda iniciada, como uma vestal, apenas envergo uma simples túnica branca. Para que possa vir a ser da cor que eu quiser. De todas as cores que eu quiser. Vou poder escolher de entre a paleta que sei que tenho, de entre tudo o que sei que sou. E vou poder divertir-me a viver todo o espectro da mulher inteira, versátil e fascinante que me habita. Quando e como me apetecer.

Porque, hoje, eu fiz um Pacto com a Vida.

Comments:
maria,isso...
 
Dá-lhe, maria!! ;)
 
É sempre bom quando alguém se levanta do chão, sacode o pó, lambe as feridas e toma essa decisão, agarra esse querer - o seu Pacto com a Vida. Boa!
No entanto, este é um daqueles textos fortíssimos que, implicitamente, contam mil histórias; que se lê e relê e no ar fica sempre mais uma pergunta que lhe faria.
Beijo Maria? Beijo Carolina? Beijo Maria Carolina?
 
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